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Acórdão
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TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ 6ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS Autos nº. 0017794-83.2024.8.16.0030 Recurso Inominado Cível n° 0017794-83.2024.8.16.0030 RecIno 2º Juizado Especial da Fazenda Pública de Foz do Iguaçu Recorrente(s): RAFAEL WILLIAN DE OLIVEIRA Recorrido(s): ESTADO DO PARANÁ Relator: Austregésilo Trevisan RECURSO INOMINADO. DIREITO ADMINISTRATIVO. EXAME NACIONAL DA MAGISTRATURA. EDITAL 01/2024. COMISSÃO DE HETEROIDENTIFICAÇÃO. INDEFERIMENTO DO PEDIDO PARA PARTICIPAR COMO NEGRO/PARDO. AUSÊNCIA DAS CARACTERÍSTICAS FENOTÍPICAS. ART. 9º, CAPUT, E § 1ºDA RESOLUÇÃO 541/2023 DO CNJ. SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA. INSURGÊNCIA DO AUTOR. NÃO ACOLHIMENTO. IMPOSSIBILIDADE DE REVISÃO TÉCNICA E SUBSTITUIÇÃO DA COMISSÃO AVALIADORA. CONTROLE JURISDICIONAL RESTRITO À VERIFICAÇÃO DE ILEGALIDADE OU DESRESPEITO ÀS NORMAS EDITALÍCIAS. RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO. I. CASO EM EXAME 1. Recurso Inominado interposto em face da sentença de improcedência dos pedidos do Recorrente, que questiona o indeferimento de sua participação no Exame Nacional da Magistratura como negro/pardo, em razão da ausência de características fenotípicas que o enquadrassem na política de cotas, conforme avaliação da Comissão de Heteroidentificação. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2. A questão em discussão consiste em definir se é válida a decisão da comissão de heteroidentificação que indeferiu o pedido do recorrente para participar do exame nacional da magistratura como negro/pardo, com base na ausência de características fenotípicas conforme a resolução do CNJ. III. RAZÕES DE DECIDIR 3. O Poder Judiciário não pode revisar tecnicamente a decisão da Comissão de Heteroidentificação, que agiu de acordo com a Resolução 541/2023 do CNJ. 4. A Comissão utilizou exclusivamente o critério fenotípico para aferição da condição declarada pelo candidato, conforme previsto na legislação. 5. Não houve comprovação de ilegalidade ou desrespeito às normas editalícias nos procedimentos adotados pela Administração Pública. 6. A juntada de fotografias não autoriza o Judiciário a substituir a decisão da Comissão de Heteroidentificação. IV. DISPOSITIVO E TESE 7. Recurso conhecido e desprovido. Tese de julgamento: É legítima a utilização de critérios fenotípicos pela comissão de heteroidentificação em concursos públicos para aferição da condição racial do candidato, respeitando a dignidade da pessoa humana e garantindo o contraditório e a ampla defesa. I - RELATÓRIO Relatório dispensado, nos termos do art. 46 da Lei 9099/95. II - FUNDAMENTAÇÃO Inicialmente, concedo ao Autor os benefícios da assistência judiciária gratuita, uma vez inexistem elementos que evidenciem a falta dos pressupostos legais para a concessão de gratuidade (art. 99, §2º do CPC). Satisfeitos os pressupostos processuais de admissibilidade, o recurso merece ser conhecido. A controvérsia em análise diz respeito à possibilidade de o Poder Judiciário exercer controle jurisdicional sobre o ato administrativo que deixou de reconhecer o recorrente como beneficiário da política de cotas, ao não o enquadrar como pardo, conforme autodeclaração inicialmente apresentada. Ressalte-se que a temática relativa à reserva de vagas para negros e pardos já foi objeto de apreciação pelo Supremo Tribunal Federal, no julgamento da Ação Declaratória de Constitucionalidade n. º 41/DF, sob relatoria do Ministro Roberto Barroso, ocasião em que se firmou o entendimento de que: "É constitucional a reserva de 20% das vagas oferecidas nos concursos públicos para provimento de cargos efetivos e empregos públicos no âmbito da administração pública direta e indireta. É legítima a utilização, além da autodeclaração, de critérios subsidiários de heteroidentificação, desde que respeitada a dignidade da pessoa humana e garantidos o contraditório e a ampla defesa". No presente caso, ao contrário do que alega o Autor, não se verifica qualquer comprovação de que os critérios e procedimentos adotados pela Administração Pública tenham sido desproporcionais ou irrazoáveis. Isso porque a documentação acostada aos autos demonstra que houve motivação clara e adequada por parte da Comissão, que agiu em estrita obediência ao art. 9º da Resolução 541/2023 do CNJ, que dispõe: “Art. 9º A comissão de heteroidentificação utilizará exclusivamente o critério fenotípico para aferição da condição declarada pelo(a) candidato(a) no concurso público. § 1º Serão consideradas as características fenotípicas do(a) candidato(a) ao tempo da realização do procedimento de heteroidentificação. § 2º Não serão considerados, para os fins do caput, quaisquer registros ou documentos pretéritos eventualmente apresentados, inclusive imagem e certidões referentes à confirmação em procedimentos de heteroidentificação realizados em outros concursos públicos federais, estaduais, distritais e municipais.” Logo, coaduno com a r. sentença (mov. 27.1 – autos principais), nos seguintes termos: “Na hipótese, da decisão administrativa nº 10336706 (seq. 1.6) proferida em resposta ao recurso apresentado pelo autor, extrai-se o seguinte: A comissão recursal, analisando a foto anexada ao requerimento e o vídeo da avaliação telepresencial do examinando Rafael William de Oliveira confirmou a decisão da Comissão de Heteroidentificação na primeira etapa que indeferiu o pedido do examinando Rafael William de Oliveira para participar do Enam como negro/pardo por entender que o examinando não possui as características fenotípicas, com base no artigo 9º e parágrafo primeiro da Resolução 541/2023 do CNJ. A Resolução é expressa no artigo 9º que o critério a ser aferido pela comissão de heteroidentificação é exclusivamente o critério fenotípico e no parágrafo primeiro do mesmo artigo prevê “Serão consideradas as características fenotípicas do candidato ao tempo da realização do procedimento de heteroidentificação”. A Recomendação nº1 do ENAM dispõe expressamente em seu artigo 1º, item III- orientem à Comissão de heteroidentificação que utilize exclusivamente o critério fenotípico para aferição da condição declarada pela examinanda ou examinando, de acordo com a foto anexada ao formulário de requerimento, ou, se necessário, por averiguação por videoconferência, previamente agendada com a pessoa examinanda, e ainda: a) no caso de averiguação por videconferência, o procedimento de heteroidentificação seja filmado e sua gravação utilizada na análise de eventuais recursos interpostos, devendo informar que a recusa à realização da filmagem implicará a não validação da condição de pessoa negra. Em que pese a documentação apresentada pelo examinando, questionando a sua não identificação como pessoa parda, por parte da banca, esta comissão recursal confirma a decisão da Comissão de Heteroidentificação, não confirmando a condição autodeclarada da pessoa candidata para participar do ENAM como pessoa parda/negra. Assim, em que pesem as alegações do reclamante, não há demonstração de que os critérios e procedimentos adotados foram desarrazoados. (...) Portanto, reforça-se que a juntada de fotografias não autoriza o judiciário a substituir-se à comissão de heteroidentificação instituída especificamente para tal atribuição, especialmente quando há compatibilidade da conclusão desta com os parâmetros legislativos e jurisprudenciais, como ocorre na hipótese.” Dessa forma, as alegações do Autor não são passíveis de afastar o parecer técnico exarado pela banca examinadora, vez que não restou comprovada a ocorrência de flagrante ilegalidade a ser corrigida pelo Poder Judiciário. Nesse sentido: RECURSO INOMINADO. CONCURSO PÚBLICO PARA PROCURADOR MUNICIPAL NA CIDADE DE MARINGÁ. EDITAL 018/2022. PEDIDO DE RESERVA DE VAGA NA LISTA ESPECIAL VOLTADA A COTISTAS. SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA. PRELIMINAR DE CERCEAMENTO DE DEFESA NÃO VERIFICADA. JUIZ COMO DESTINATÁRIO DAS PROVAS PODE INDEFERIR AS QUE CONSIDERAR DESNECESSÁRIAS. MÉRITO. CONTROLE JURISDICIONAL SOBRE O ATO ADMINISTRATIVO DE COMISSÃO ESPECIAL DE HETEROIDENTIFICAÇÃO QUE AVALIA A AUTODECLARAÇÃO LANÇADA PELO CANDIDATO NO MOMENTO DA INSCRIÇÃO DO CERTAME. IMPOSSIBILIDADE DE REVISÃO TÉCNICA E SUBSTITUIÇÃO DA COMISSÃO AVALIADORA. AVERIGUAÇÃO RESTRITA A ILEGALIDADE OU DESRESPEITO ÀS NORMAS EDITALÍCIAS. CRITÉRIOS OBJETIVOS DE AVALIAÇÃO DE ACORDO COM A PREVISÃO EDITALÍCIA E COM POSSIBILIDADE DE RECURSO. VALIDADE DO ATO ADMINISTRATIVO. SENTENÇA MANTIDA POR SEUS PRÓPRIOS FUNDAMENTOS. RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO. (TJPR - 6ª Turma Recursal dos Juizados Especiais - 0001931-29.2023.8.16.0190 - Maringá - Rel.: JUÍZA DE DIREITO DA TURMA RECURSAL DOS JUÍZAADOS ESPECIAIS LUCIANA FRAIZ ABRAHAO - J. 12.07.2024) RECURSO INOMINADO. AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE DE ATO ADMINISTRATIVO. AUTOR QUE FOI ELIMINADO DE CONCURSO PÚBLICO POR DECISÃO DA BANCA EXAMINADORA, A QUAL ENTENDEU QUE A PARTE NÃO CUMPRIA OS REQUISITOS PARA OCUPAR VAGA DESTINADA À COTA RACIAL DE AFRODESCENDENTES/PARDOS. SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA. RECURSO DO AUTOR. MANTIDO DEFERIMENTO DA JUSTIÇA GRATUITA. DO MÉRITO. EDITAL DE ABERTURA DO CERTAME QUE PREVIA, EXPRESSAMENTE, A POSSIBILIDADE DE ANÁLISE POR COMISSÃO ESPECIALIDADE CASO IDENTIFICADA POSSÍVEL FRAUDE NA AUTODETERMINAÇÃO ENQUANTO PARDO. APLICADO ENTENDIMENTO ESTABELECIDO PELO STF NA ADC Nº 41/DF, SEGUNDO O QUAL: “é legítima a utilização, além da autodeclaração, de critérios subsidiários de heteroidentificação (e.g., a exigência de autodeclaração presencial perante a comissão do concurso), desde que respeitada a dignidade da pessoa humana e garantidos o contraditório e a ampla defesa” (ADC 41/DF, Rel. Ministro ROBERTO BARROSO, TRIBUNAL PLENO, DJe de 17/08/2017). BANCA QUE ESTABELECEU CRITÉRIOS FENOTÍPICOS ESPECÍFICOS. POSSIBILITADO O EXERCÍCIO DA AMPLA DEFESA E DO CONTRADITÓRIO. AUTOR QUE APRESENTOU RECURSO ADMINISTRATIVO, O QUAL RESTOU INDEFERIDO. ILEGALIDADE DO ATO QUE ELIMINOU O RECORRENTE DO CERTAME NÃO IDENTIFICADA. NÃO ENQUADRAMENTO DO CANDIDATO NOS REQUISITOS PARA INCLUSÃO NA LISTA DE COTAS RACIAIS QUE, ADEMAIS, REPRESENTA MÉRITO DO ATO ADMINISTRATIVO. IMPOSSIBILIDADE DE ANÁLISE PELO PODER JUDICIÁRIO. SENTENÇA MANTIDA. RECURSO CONHECIDO E NÃO PROVIDO. (TJPR - 6ª Turma Recursal dos Juizados Especiais - 0003705-41.2021.8.16.0004 - Curitiba - Rel.: JUIZ DE DIREITO DA TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS HAROLDO DEMARCHI MENDES - Rel.Desig. p/ o Ac�rd�o: JUÍZA DE DIREITO DA TURMA RECURSAL DOS JUÍZAADOS ESPECIAIS GISELE LARA RIBEIRO - J. 09.03.2024). Assim, não merece reforma a sentença proferida pelo juízo a quo. III - VOTO Isto posto, o voto é pelo CONHECIMENTO e DESPROVIMENTO do recurso, mantendo a r. sentença em sua integralidade, nos termos do art. 46 da Lei nº. 9.099/95. Ante a sucumbência, condeno o Recorrente ao pagamento das custas processuais e honorários advocatícios em favor do patrono do Recorrido, que fixo em 10% (dez por cento) sobre o valor atualizado da causa, pela média do INPC/IGP-DI a contar do ajuizamento da ação, nos termos do art. 55 da Lei nº 9.099/95, aplicável aos Juizados Especiais da Fazenda Pública por força do artigo 27 da Lei n. 12.153/2009, ficando, contudo, a exigibilidade sujeita à condição suspensiva, nos termos do art. 98, § 3º, do CPC. Ante o exposto, esta 6ª Turma Recursal dos Juizados Especiais resolve, por unanimidade dos votos, em relação ao recurso de RAFAEL WILLIAN DE OLIVEIRA, julgar pelo(a) Com Resolução do Mérito - Não-Provimento nos exatos termos do voto. O julgamento foi presidido pelo (a) Juiz(a) Austregésilo Trevisan (relator), com voto, e dele participaram os Juízes Marcos José Vieira e Haroldo Demarchi Mendes. 10 de abril de 2026 Austregésilo Trevisan Juiz Relator
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