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Acórdão
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TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ 2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS Autos nº. 0004455-71.2024.8.16.0090 Recurso Inominado Cível n° 0004455-71.2024.8.16.0090 RecIno Juizado Especial Cível de Ibiporã Recorrente(s): EVA MAXIMO AUGUSTO Recorrido(s): AASAP - ASSOCIACAO DE AMPARO SOCIAL AO APOSENTADO E PENSIONISTA Relator: Irineu Stein Junior Ementa: DIREITO DO CONSUMIDOR E DIREITO PREVIDENCIÁRIO. RECURSO INOMINADO. DESCONTOS INDEVIDOS EM BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DE AUTORIZAÇÃO. VIOLAÇÃO AO DEVER DE INFORMAÇÃO. DANOS MORAIS CONFIGURADOS. RESTITUIÇÃO EM DOBRO. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO. I. CASO EM EXAME 1. Recurso inominado interposto contra sentença que não reconheceu a totalidade dos descontos indevidos realizados no benefício previdenciário da parte autora, limitando-se a considerar apenas um valor específico, e que não fixou indenização por danos morais, apesar da privação indevida de valores que causou transtornos à consumidora, pessoa idosa e presumivelmente vulnerável. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2. A questão em discussão consiste em saber se a parte ré comprovou o regular consentimento da autora e a efetiva prestação dos serviços, além de avaliar a legalidade dos descontos realizados no benefício previdenciário da parte autora e a possibilidade de indenização por danos morais. III. RAZÕES DE DECIDIR 3. Presentes os pressupostos de admissibilidade dos recursos, deles conheço. A relação entre as partes é de consumo (arts. 2º e 3º do CDC), sendo aplicáveis as normas protetivas do Código de Defesa do Consumidor, inclusive a inversão do ônus da prova (art. 6º, VIII). A documentação apresentada pela parte ré (mov. 14.2), consistente em ficha de filiação e termo de autorização datados de 05/06/2024, não atendendo aos requisitos do art. 655, III, da Instrução Normativa PRES/INSS nº 128/2022, vigente à época da suposta adesão. Os documentos estão desacompanhados de identificação oficial com foto e comprovação biométrica. Ademais, não consta nos autos gravação telefônica que comprove, de forma clara e inequívoca, o consentimento livre e informado do autor, pessoa idosa e presumivelmente vulnerável, nos termos do Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003). Outrossim, não há descrição clara dos serviços supostamente contratados, tampouco comprovação de que as informações essenciais foram previamente disponibilizadas à consumidora. Essa omissão configura violação ao dever de informação previsto no art. 6º, III, do Código de Defesa do Consumidor, além de afrontar os princípios da boa-fé objetiva e da transparência, que devem nortear a atuação dos fornecedores nas relações de consumo. Assim, diante da inversão do ônus da prova e da regra do art. 373, II, do CPC, incumbia à parte ré comprovar o regular consentimento da autora e a efetiva prestação dos serviços, ônus do qual não se desincumbiu. Nos termos do art. 46 do CDC, não vinculam o consumidor contratos cujas cláusulas não foram oportunamente conhecidas ou que dificultem a compreensão de seu alcance. Jurisprudência: RECURSO INOMINADO. BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. DESCONTO MENSAL DE CONTRIBUIÇÃO. INEXISTÊNCIA DE PROVA DA AUTORIZAÇÃO PARA COBRANÇA. DESCONTOS INDEVIDOS. RESTITUIÇÃO EM DOBRO SOBRE OS VALORES COBRADOS A PARTIR DE 30.03.2021. MODULAÇÃO DOS EFEITOS DO EAREsp 664.888/RS. VIOLAÇÃO AOS DIREITOS DA PERSONALIDADE VERIFICADA NO CASO CONCRETO. DANOS MORAIS FIXADOS. RECURSO PROVIDO. TJPR - 2ª Turma Recursal - 0003714- 36.2024.8.16.0153 - Rel. Juiz Álvaro Rodrigues Junior - j. 18.02.2025. 4. Devolução em dobro. A r. sentença proferida pelo juízo a quo (mov.41.1) deixou de reconhecer a totalidade dos descontos realizados no benefício previdenciário da parte recorrente, limitando- se a considerar apenas um valor de R$39,09. Contudo, conforme demonstrado no mov. 48.4, através do histórico de créditos juntado aos autos, restou comprovado que ocorreram dois descontos indevidos, nos meses de julho e agosto de 2024, antes do efetivo cancelamento da filiação. Reconhecida a irregularidade dos descontos sob a rubrica “CONTRIB. AASAP 0800 200 0177”, impõe-se a restituição dos valores indevidamente cobrados até a data do efetivo cancelamento. Nos termos do art. 42, parágrafo único, do CDC, é devida a restituição em dobro, salvo engano justificável o que não se verifica no presente caso. O Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do EAREsp 676.608/RS (rel. Min. Og Fernandes, j. 21/10/2020), firmou entendimento de que a restituição em dobro independe de má-fé, sendo suficiente a conduta contrária à boa-fé objetiva, com efeitos modulados a partir de 30/03/2021. Mantém-se inalterado o critério fixado na sentença quanto à correção monetária, devendo incidir conforme a legislação aplicável da Lei nº 14.905/2024. 5. Do Dano Moral. Com relação aos danos morais, a situação fática causa gravame de natureza extrapatrimonial, notadamente para aquele que tem o benefício como fonte de renda, no caso dos autos, percebe-se que a parte autora/recorrente recebe valor módico a título de benefício previdenciário, de modo que a privação indevida de valores dos proventos de aposentadoria causa transtornos extraordinários que demanda compensação, portanto, resta configurada situação que ultrapassa os meros dissabores. Neste sentido, confira-se os precedentes desta egrégia Turma Recursal: RECURSOS INOMINADOS (2). BANCÁRIO. EMPRÉSTIMO CONSIGNADO. DESNECESSIDADE DE PERÍCIA GRAFOTÉCNICA. DIVERGÊNCIA DAS ASSINATURAS. AUSÊNCIA DE PROVA DA CONTRATAÇÃO. EVIDÊNCIA DE FRAUDE QUE NÃO AFASTA A RESPONSABILIDADE OBJETIVA DA INSTITUIÇÃO FINANCEIRA. FALHA NA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS. DESCONTO EM BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. BAIXA RENDA. SITUAÇÃO EXCEPCIONAL. DANO MORAL DEVIDO NO CASO EM TELA. QUANTUM INDENIZATÓRIO MANTIDO. SENTENÇA MANTIDA. RECURSOS CONHECIDOS E NÃO PROVIDOS. (TJPR - 2ª Turma Recursal - 0003469- 09.2021.8.16.0160 - Sarandi - Rel.: JUÍZA DE DIREITO SUBSTITUTO FERNANDA BERNERT MICHIELIN - J. 02.09.2022 – grifos acrescentados) RECURSO INOMINADO. CONSUMIDOR. EMPRÉSTIMO CONSIGNADO. AUSÊNCIA DE CONTRATAÇÃO RECONHECIDA EM SENTENÇA. DEPÓSITO DE VALOR NA CONTA DA AUTORA SEM SOLICITAÇÃO E COM DESCONTOS INDEVIDOS NO BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. RESTITUIÇÃO DAS PARCELAS PAGAS. DESNECESSIDADE DE PROVA DA MÁ FÉ. JULGAMENTO DO EAREsp 676608/RS PELO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. MODULAÇÃO DOS EFEITOS PELA CORTE SUPERIOR. RESTITUIÇÃO SIMPLES DOS VALORES DOS DESCONTOS INDEVIDOS ATÉ A DATA DE 30.03.2021, DOBRADA DEPOIS. COBRANÇAS EFETUADAS APÓS JUNHO/2021. DANO MORAL CONFIGURADO NO CASO CONCRETO. QUANTUM ARBITRADO QUE NÃO COMPORTA REDUÇÃO. PRINCÍPIOS DA RAZOABILIDADE E PROPORCIONALIDADE OBSERVADOS. TERMO INICIAL DE JUROS E CORREÇÃO MONETÁRIA. RESPONSABILIDADE EXTRACONTRATUAL. RECURSO DESPROVIDO. (TJPR - 2ª Turma Recursal - 0017743-74.2021.8.16.0031 - Guarapuava - Rel.: JUIZ DE DIREITO DA TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS MARCEL LUIS HOFFMANN - J. 19.08.2022 – grifos acrescentados) Desse modo, a sentença merece reforma no tocante à fixação de indenização por danos morais, porquanto devidos no caso concreto, uma vez evidenciada situação excepcional a ensejar o pagamento a esse título. Assim, observados os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, arbitra-se o valor da indenização por danos morais em R$ 2.000,00 (dois mil reais), montante este que atende às peculiaridades do caso concreto, sem causar o enriquecimento sem causa da parte recorrente. O valor deverá ser corrigido pelo índice IPCA desde a data da decisão e acrescido de juros de mensais, calculados pela Taxa Legal (art. 406 do CCB), estes contados do ilícito (data da contratação). 6. Isso posto, voto no sentido de CONHECER E NO MÉRITO DAR PROVIMENTO AO RECURSO INTERPOSTO PELA PARTE AUTORA, para julgar procedentes os pedidos iniciais conforme fundamentação supra. Ante o sucesso recursal inaplicável a condenação ao pagamento de honorários advocatícios (art. 55 da Lei 9.099/95). Custas de lei, conforme Lei Estadual 18.413/14, arts. 2º, inc. II e 4º, e Instrução Normativa - CSJEs, art. 18. Observada a gratuidade de justiça a parte recorrente. Tese de julgamento: A ausência de comprovação do consentimento livre e informado do consumidor, especialmente em relações que envolvem pessoas idosas e presumivelmente vulneráveis, configura violação ao dever de informação e à boa-fé objetiva, resultando na nulidade de cláusulas contratuais e na obrigação de restituição em dobro de valores indevidamente cobrados, além da possibilidade de indenização por danos morais. _________ Dispositivos relevantes citados: CDC, arts. 2º, 3º, 6º, III, e 42, p.u.; CPC, art. 373, II; Lei nº 10.741/2003, art. 1º; Instrução Normativa PRES/INSS nº 128/2022, art. 655, III. Jurisprudência relevante citada: TJPR, RECURSO INOMINADO, 0003714- 36.2024.8.16.0153, Rel. Juiz Álvaro Rodrigues Junior, 2ª Turma Recursal, j. 18.02.2025; TJPR, RECURSOS INOMINADOS (2), 0003469-09.2021.8.16.0160, Rel. JUÍZA DE DIREITO SUBSTITUTO FERNANDA BERNERT MICHIELIN, 2ª Turma Recursal, j. 02.09.2022; TJPR, RECURSO INOMINADO, 0017743-74.2021.8.16.0031, Rel. JUIZ DE DIREITO DA TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS MARCEL LUIS HOFFMANN, 2ª Turma Recursal, j. 19.08.2022. Resumo em linguagem acessível: O tribunal decidiu a favor da parte autora, que reclamava de descontos indevidos em seu benefício previdenciário. O juiz entendeu que a parte ré não conseguiu provar que a autora havia autorizado esses descontos, e que não foram fornecidas informações claras sobre os serviços contratados. Por isso, a decisão determina que a parte ré deve devolver em dobro os valores descontados indevidamente, além de pagar R$ 2.000,00 por danos morais, já que a situação causou transtornos à autora, que depende desse benefício para viver. A decisão também isenta a parte autora de pagar honorários advocatícios, devido ao sucesso do recurso. Ante o exposto, esta 2ª Turma Recursal dos Juizados Especiais resolve, por unanimidade dos votos, em relação ao recurso de EVA MAXIMO AUGUSTO , julgar pelo(a) Com Resolução do Mérito - Provimento nos exatos termos do voto. O julgamento foi presidido pelo (a) Juiz(a) Irineu Stein Junior (relator), com voto, e dele participaram os Juízes Vanessa De Souza Camargo e Patrícia Di Fuccio Lages De Lima. 24 de fevereiro de 2026 Irineu Stein Junior Juiz (a) relator (a)
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