Ementa
EMENTA: DIREITO BANCÁRIO E INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS. DIREITO DO CONSUMIDOR. CONTA CORRENTE. COBRANÇA DE VALORES MENSAIS. AUSÊNCIA DE PROVA DA CONTRATAÇÃO. REVELIA DA RÉ. CONTROVÉRSIA RECURSAL LIMITADA A INDENIZAÇÃO POR DANO MORAL. ÚNICA COBRANÇA. IRRELEVANTE. DANO MORAL CARACTERIZADO NO CASO CONCRETO. DÉBITO INDEVIDO REALIZADO EM CONTA CORRENTE EM QUE A AUTORA, PESSOA IDOSA, RECEBE BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. REPERCURSSÃO EM VERBA DE NATUREZA ALIMENTAR. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO.I. CASO EM EXAME1. Recurso inominado interposto contra R. Sentença que reconheceu a inexigibilidade de cobrança mensal lançada em conta corrente da Autora, pessoa idosa, por ausência de prova da contratação, mas julgou improcedente o pedido de indenização por dano moral. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO2. A questão em discussão consiste em saber se o desconto indevido, ainda que único e posteriormente cancelado, realizado sem lastro contratual em conta corrente destinada ao recebimento de benefício previdenciário por pessoa idosa, configura dano moral indenizável.III. RAZÕES DE DECIDIR3. A R. Sentença reconheceu a inexistência da relação jurídica, por ausência de comprovação da contratação, uma vez que a Ré é revel e a ela incumbia o ônus probatório quanto à idoneidade da contratação, nos termos do art. 373, II, do CPC e do art. 14 do CDC.4. O caso em exame apresenta particularidades relevantes. O extrato bancário juntado aos autos (mov. 1.6) comprova que a Autora recebe benefício previdenciário na conta atingida pela cobrança indevida, de modo que o valor descontado incidiu diretamente sobre verba de natureza alimentar. Ainda que se trate de desconto único, a ilicitude não se afere pela quantidade de lançamentos, mas pela inexistência de lastro contratual e pela efetiva subtração de recursos essenciais à subsistência da consumidora.5. Ademais, a ocorrência de apenas um desconto não decorreu de conduta diligente da Ré, mas do esforço da própria Autora, pessoa idosa, que buscou prontamente a solução da controvérsia na esfera administrativa. Com efeito, consta dos autos notificação extrajudicial encaminhada à instituição financeira (mov. 1.7, autos de origem), tendo a cobrança sido posteriormente cancelada após a impugnação apresentada. Assim, a unicidade do desconto não constitui elemento apto a afastar o abalo extrapatrimonial verificado no caso concreto.6. O conjunto probatório evidencia que houve desconto indevido em conta bancária destinada ao recebimento de benefício previdenciário, com efetiva subtração de verba de natureza alimentar. Tal circunstância comprova a caracterização de lesão extrapatrimonial no caso concreto. À luz dos parâmetros adotados por esta C. Turma Recursal em casos análogos, fixo o quantum indenizatório em R$ 5.000,00.IV. DISPOSITIVO E TESE 7. Recurso conhecido e provido. Sentença reformada em parte. Teses de julgamento: 1. O desconto indevido realizado sem comprovação de contratação gera dever de indenizar. 2. A incidência do débito sobre conta destinada ao recebimento de benefício previdenciário, ainda que em único lançamento, configura dano moral indenizável.Dispositivos relevantes: CPC, art. 373, II; CDC, art. 14; CC, art. 927.Jurisprudência relevante da C. 3ª Turma Recursal: 0010818-36.2024.8.16.0038; 0000811-21.2022.8.16.0081; 0002265-98.2024.8.16.0070.
(TJPR - 3ª Turma Recursal - 0003129-47.2025.8.16.0153 - Santo Antônio da Platina - Rel.: JUÍZA DE DIREITO DA TURMA RECURSAL DOS JUÍZAADOS ESPECIAIS LETÍCIA ZÉTOLA PORTES - Rel.Desig. p/ o Ac�rd�o: JUIZ DE DIREITO DA TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS TIAGO GAGLIANO PINTO ALBERTO - J. 02.03.2026)
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PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO PARANÁ 3ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS - PROJUDI Rua Mauá, 920 - 14º Andar - Alto da Glória - Curitiba/PR - CEP: 80.030-200 - Fone: 3210-7003/7573 - E-mail: 3turmarecursaljuizadosespeciais@tjpr.jus.br RECURSO INOMINADO N. 0003129-47.2025.8.16.0153 RECORRENTE: CONCEIÇÃO APARECIDA PEREIRA MORÃES RECORRIDA: FINANCOB INTERMEDIAÇÃO DE NEGÓCIOS E ASSESSORIA DE COBRANÇA LTDA AÇÃO: CONDENATÓRIA ORIGEM: JUIZADO ESPECIAL CÍVEL DE SANTO ANTÔNIO DA PLATINA JUIZ A QUO: JULIO CESAR MICHELUCCI TANGA RELATORA: JUIZA LETICIA ZÉTOLA PORTES REDATOR: JUIZ TIAGO GAGLIANO PINTO ALBERTO EMENTA: DIREITO BANCÁRIO E INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS. DIREITO DO CONSUMIDOR. CONTA CORRENTE. COBRANÇA DE VALORES MENSAIS. AUSÊNCIA DE PROVA DA CONTRATAÇÃO. REVELIA DA RÉ. CONTROVÉRSIA RECURSAL LIMITADA A INDENIZAÇÃO POR DANO MORAL. ÚNICA COBRANÇA. IRRELEVANTE. DANO MORAL CARACTERIZADO NO CASO CONCRETO. DÉBITO INDEVIDO REALIZADO EM CONTA CORRENTE EM QUE A AUTORA, PESSOA IDOSA, RECEBE BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. REPERCURSSÃO EM VERBA DE NATUREZA ALIMENTAR. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO. I. CASO EM EXAME 1. Recurso inominado interposto contra R. Sentença que reconheceu a inexigibilidade de cobrança mensal lançada em conta corrente da Autora, pessoa idosa, por ausência de prova da contratação, mas julgou improcedente o pedido de indenização por dano moral. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2. A questão em discussão consiste em saber se o desconto indevido, ainda que único e posteriormente cancelado, realizado sem lastro contratual em conta corrente destinada ao recebimento de benefício previdenciário por pessoa idosa, configura dano moral indenizável. III. RAZÕES DE DECIDIR 3. A R. Sentença reconheceu a inexistência da relação jurídica, por ausência de comprovação da contratação, uma vez que a Ré é revel e a ela incumbia o ônus probatório quanto à idoneidade da contratação, nos termos do art. 373, II, do CPC e do art. 14 do CDC. 4. O caso em exame apresenta particularidades relevantes. O extrato bancário juntado aos autos (mov. 1.6) comprova que a Autora recebe benefício previdenciário na conta atingida pela cobrança indevida, de modo que o valor descontado incidiu diretamente sobre verba de natureza alimentar. Ainda que se trate de desconto único, a ilicitude não se afere pela quantidade de lançamentos, mas pela inexistência de lastro contratual e pela efetiva subtração de recursos essenciais à subsistência da consumidora. 5. Ademais, a ocorrência de apenas um desconto não decorreu de conduta diligente da Ré, mas do esforço da própria Autora, pessoa idosa, que buscou prontamente a solução da controvérsia na esfera administrativa. Com efeito, consta dos autos notificação extrajudicial encaminhada à instituição financeira (mov. 1.7, autos de origem), tendo a cobrança sido posteriormente cancelada após a impugnação apresentada. Assim, a unicidade do desconto não constitui elemento apto a afastar o abalo extrapatrimonial verificado no caso concreto. 6. O conjunto probatório evidencia que houve desconto indevido em conta bancária destinada ao recebimento de benefício previdenciário, com efetiva subtração de verba de natureza alimentar. Tal circunstância comprova a caracterização de lesão extrapatrimonial no caso concreto. À luz dos parâmetros adotados por esta C. Turma Recursal em casos análogos, fixo o quantum indenizatório em R$ 5.000,00. IV. DISPOSITIVO E TESE 7. Recurso conhecido e provido. Sentença reformada em parte. Teses de julgamento: 1. O desconto indevido realizado sem comprovação de contratação gera dever de indenizar. 2. A incidência do débito sobre conta destinada ao recebimento de benefício previdenciário, ainda que em único lançamento, configura dano moral indenizável. Dispositivos relevantes: CPC, art. 373, II; CDC, art. 14; CC, art. 927. Jurisprudência relevante da C. 3ª Turma Recursal: 0010818- 36.2024.8.16.0038; 0000811-21.2022.8.16.0081; 0002265- 98.2024.8.16.0070. A C Ó R D Ã O Vistos, relatados e discutidos estes autos de Recurso Inominado n. 0003129- 47.2025.8.16.0153 em que é Recorrente Conceição Aparecida Pereira Morães e Recorrida Financob Intermediações de Negócios e Assessoria de Cobranças LTDA, A C O R D A Mos Juízes da Terceira Turma Recursal do E. TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ, à maioria dos votos, em CONHECER e DAR PROVIMENTO ao recurso, reformando a R. Sentença, nos termos do voto do Redator. R E L A T Ó R I O Relatório dispensado (Enunciado n. 92 do FONAJE). V O T O Defiro a gratuidade processual, em atenção aos documentos juntados no mov. 27.2-27.3, autos de origem. Anote-se. Satisfeitos os pressupostos processuais, subjetivos e objetivos, de admissibilidade, positivo o juízo de prelibação, motivo pelo qual o recurso deve ser conhecido. Deliberação a partir da ementa, na forma do artigo 46 da Lei 9.099/95. Diante do exposto, o voto é para CONHECER e DAR PROVIMENTO ao recurso, reformando a R. Sentença, nos termos da fundamentação. Tratando-se de relação extracontratual, a título de juros moratórios, deverá ser aplicada a Taxa Selic desde a data do evento danoso até a data do arbitramento da condenação, sem a incidência de correção monetária, nos termos da Súmula 54, do E. STJ, deduzindo-se da taxa referencial o valor referente ao IPCA, conforme disposto no §1º do art. 406 do Código Civil. A partir da data do arbitramento, passa a incidir também a correção monetária sobre a condenação, nos termos da Súmula 362 do STJ, devendo o quantum indenizatório ser atualizado pela Taxa Selic exclusivamente, que cumula juros moratórios e atualização monetária. Ante o êxito recursal, sem custas ou honorários. É como voto. Ante o exposto, esta 3ª Turma Recursal dos Juizados Especiais resolve, por maioria dos votos, em relação ao recurso de CONCEIÇÃO APARECIDA PEREIRA MORÃES, julgar pelo(a) Com Resolução do Mérito - Provimento nos exatos termos do voto. O julgamento foi presidido pelo (a) Juiz(a) Juan Daniel Pereira Sobreiro, sem voto, e dele participaram os Juízes Letícia Zétola Portes (relator vencido), Tiago Gagliano Pinto Alberto (relator designado) e Fernando Swain Ganem. 27 de fevereiro de 2026 TIAGO GAGLIANO PINTO ALBERTO Juiz Redator *A síntese desta fundamentação encontra-se explicada neste segmento do voto, em linguagem simplificada e de fácil acesso ao cidadão, em atenção ao princípio argumentativo da inteligibilidade. ANEXO I 1. O que aconteceu nesse caso? Uma idosa teve um valor descontado da sua conta corrente sem ter contratado qualquer serviço. Essa conta era usada para receber o benefício da aposentadoria. 2. O banco provou que existia contrato autorizando o desconto? Não. A Ré não apresentou prova de que a cliente havia contratado o serviço. Por isso, a Justiça já tinha reconhecido que a cobrança era indevida. 3. 3. Mesmo sendo só um desconto, isso pode gerar indenização por dano moral? Sim. O Tribunal entendeu que não importa se foi apenas uma cobrança. O que importa é que o desconto foi feito sem autorização e atingiu dinheiro de aposentadoria, que é usado para a sobrevivência da pessoa. 4. O fato de o desconto ter sido cancelado depois muda alguma coisa? Não. O desconto só foi cancelado porque a própria cliente reclamou e notificou o banco. Isso não apaga o problema causado. 5. Qual foi a decisão final? O recurso da cliente foi aceito. A sentença foi modificada para condenar a Ré a pagar R$ 5.000,00 de indenização por dano moral.
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