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Acórdão
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TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ 6ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS Recurso Inominado Cível n° 0004121-59.2024.8.16.0115 RecIno Juizado Especial da Fazenda Pública de Matelândia Recorrente(s): Município de Céu Azul/PR Recorrido(s): RAFAELA LOCCATELLI MOTA PAIVA Relator: Marcos José Vieira RECURSO INOMINADO. SERVIDORA DO MAGISTÉRIO DO MUNICÍPIO DE CÉU AZUL. AÇÃO DE COBRANÇA DE DIFERENÇAS REMUNERATÓRIAS DE JORNADA SUPLEMENTAR. PRELIMINAR DE INCOMPETÊNCIA DO JUIZADO ESPECIAL AFASTADA. MÉRITO. PAGAMENTO REALIZADO COM BASE NO PADRÃO INICIAL DA CARREIRA. PREVISÃO DO ART. 68 DA LEI MUNICIPAL Nº 1.947/2018 (REDAÇÃO ORIGINAL). INCONSTITUCIONALIDADE MATERIAL DESSE DISPOSITIVO. OFENSA AO ART. 7º, INCISO XVI, C/C O § 3º DO ART. 39 DA CF. MATÉRIA JÁ DECIDIDA COM EFICÁCIA VINCULANTE PELO ÓRGÃO ESPECIAL DO TJPR. PAGAMENTO QUE DEVE LEVAR EM CONSIDERAÇÃO O NÍVEL E A CLASSE DE CADA PROFESSOR. SENTENÇA DE PROCEDÊNCIA MANTIDA. RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO. RELATÓRIO Rafaela Loccatelli Mota Paiva, servidora pública, ajuizou ação em face do Município de Céu Azul, visando a dele obter o pagamento das diferenças de remuneração a título de jornada suplementar, acrescidas dos reflexos salariais. O Juízo de origem julgou procedente o pedido. Inconformado, o vencido interpôs o presente recurso requerendo a reforma da sentença. Facultada a apresentação das contrarrazões, subiram os autos a esta Turma. É o relatório. VOTO 1. Bem examinados os autos, tenho que o recurso deve ser desprovido. 2. De início, afasto a preliminar de incompetência do Juizado Especial da Fazenda Pública. O pedido de exibição de documentos formulado na inicial tem caráter incidental e não se confunde com a ação autônoma de produção antecipada de provas, não tornando o feito complexo ou incompatível com o rito sumaríssimo, especialmente quando a controvérsia principal é de direito e pode ser resolvida com a documentação já acostada ou que deveria ser trazida pelo próprio Município (art. 11 da Lei nº 12.153/09). 3. No mérito, a sentença de procedência deve ser mantida. A autora, titular do cargo efetivo de professora, realizou aulas em jornada suplementar. Pretende que o pagamento dessas seja realizado calculando-se o valor de cada hora à luz do vencimento da classe e nível que ocupa na carreira. Aduz que o réu tem remunerado as aulas suplementares com base no vencimento inicial da carreira. Com efeito, ao contrário do que se aduz nas razões recursais, a jornada suplementar nada mais é do que serviço extraordinário, uma sobrejornada de trabalho. O professor que a ministra o faz no exercício das atribuições do próprio cargo efetivo que ocupa. No mais, verifico que o Município de Céu Azul/PR remunerava a jornada suplementar com base no padrão inicial da carreira, invocando, para tanto, a redação original do art. 68 da Lei Municipal nº 1.947/2018. Ocorre, porém, que o Órgão Especial do eg. TJPR, em acórdão de que relatora a des. Dulce Maria Cecconi, reconheceu a inconstitucionalidade de lei municipal – de conteúdo semelhante à editada pelo Município recorrente – que estabelecia a remuneração da carga suplementar em valor inferior a 50% da hora normal. Entendeu-se que legislação com semelhante conteúdo normativo viola a garantia prevista no art. 7º, inciso XVI, da CF, a qual é extensível aos servidores públicos por força do § 3º do art. 39 da mesma Constituição. Refiro- me ao Incidente de Declaração de Inconstitucionalidade n. 755.847-2/01, cujos fundamentos se resumem nesta ementa: INCIDENTE DE INCONSTITUCIONALIDADE. SERVIDOR PÚBLICO MUNICIPAL. PROFESSOR COM CARGA DE 20 (VINTE) HORAS SEMANAIS. LABOR EXTRAORDINÁRIO. PAGAMENTO EM REGIME DE "CARGA SUPLEMENTAR". IMPOSSIBILIDADE. NECESSIDADE DE OBSERVÂNCIA DO ARTIGO 7º, XVI, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. POR FORÇA DE GARANTIA ESTENDIDA AOS SERVIDORES PÚBLICOS PELO ARTIGO 39, § 3º. DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DOS ARTIGOS 38 DA LEI MUNICIPAL Nº 2.156/2008 E 40 DA LEI MUNICIPAL Nº 1.871/2003. INCIDENTE PROCEDENTE. - O trabalho além da jornada legalmente estipulada para o servidor impõe o pagamento das respectivas horas - extras, superior, no mínimo, em 50% à da hora normal. O Estado Democrático de Direito pressupõe o reconhecimento da supremacia das normas constitucionais, pelo que todas as demais regras jurídicas lhe devem conformidade. (Incidente de Inconstitucionalidade n. 755.847-2/01 Órgão Especial - Rel. Des. Dulce Maria Cecconi, julgado em 21/10/2011). Ocioso lembrar que se cuida de decisão cuja observância se impõe a esta Turma. Realmente, ao tratar da eficácia vinculativa da pronúncia da inconstitucionalidade de ato normativo pelos órgãos especiais dos tribunais de justiça e regionais federais, ensina Luiz Guilherme Marinoni: “Deixe-se claro que não é apenas o órgão fracionário que submeteu a questão de constitucionalidade ao quórum qualificado que fica vinculado à decisão. (...) Frise-se que todos os juízos – inclusive os de 1º grau de jurisdição – subordinados ao Tribunal de Justiça ou Regional Federal ficam vinculados à decisão tomada pelo Plenário ou pelo Órgão Especial” (in Precedentes Obrigatórios, Ed. Revista dos Tribunais, 3ª ed., 2013, págs. 510-511, grifei). Semelhante doutrina, aliás, está afinada com o CPC/2015 (art. 927, inciso V) e o art. 297, caput, do Regimento Interno do TJPR, que conferem expressa eficácia vinculante às decisões do Órgão Especial. Portanto, é improcedente a alegação do recorrente de que a acolhida do pedido implicaria violação ao princípio da legalidade: se a lei é materialmente inconstitucional, a Administração, ao aplicá-la, pratica ato ilegítimo. 4. Do exposto, voto no sentido de conhecer e negar provimento ao recurso, mantendo-se integralmente a sentença recorrida por seus próprios fundamentos. Desprovido o recurso, deixo de condenar o Município ao pagamento de custas processuais, por ser beneficiário da isenção prevista no art. 5º da Lei Estadual nº 18.413/2014-PR. Todavia, condeno-o ao pagamento de honorários advocatícios, que fixo em 15% sobre o valor da condenação, nos termos do art. 55 da Lei nº 9.099/1995. Ante o exposto, esta 6ª Turma Recursal dos Juizados Especiais resolve, por unanimidade dos votos, em relação ao recurso de Município de Céu Azul/PR, julgar pelo(a) Com Resolução do Mérito - Não-Provimento nos exatos termos do voto. O julgamento foi presidido pelo (a) Juiz(a) Austregésilo Trevisan, sem voto, e dele participaram os Juízes Marcos José Vieira (relator), Haroldo Demarchi Mendes e Daniel Tempski Ferreira Da Costa. 13 de fevereiro de 2026 Marcos José Vieira Juiz relator
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