Íntegra
do Acórdão
Ocultar
Acórdão
Atenção: O texto abaixo representa a transcrição de Acórdão. Eventuais imagens serão suprimidas.
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ 6ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS Autos nº. 0000634-77.2024.8.16.0181 Apelação Criminal n° 0000634-77.2024.8.16.0181 Ap Juizado Especial Criminal de Marmeleiro Apelante(s): ALAN TESTA PASTORIZA Apelado(s): MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARANÁ Relator: Haroldo Demarchi Mendes APELAÇÃO CRIMINAL. AMEAÇA. ART. 147, DO CÓDIGO PENAL. SENTENÇA CONDENATÓRIA. RECURSO DA DEFESA. PRELIMINAR. PLEITO DE CONCESSÃO DE JUSTIÇA GRATUITA. NÃO CONHECIMENTO. MATÉRIA ATINENTE AO JUÍZO DA EXECUÇÃO. MÉRITO. PEDIDO DE ABSOLVIÇÃO POR INSUFICIÊNCIA DE PROVAS E ATIPICIDADE DA CONDUTA. NÃO ACOLHIMENTO. PALAVRA DA VÍTIMA DE ESPECIAL RELEVÂNCIA PROBATÓRIA, CORROBORADA COM OUTROS ELEMENTOS. MÍDIA DE ÁUDIO COM CONTEÚDO AMEAÇADOR. PROVAS SUFICIENTES DE AUTORIA E MATERIALIDADE DELITIVAS. PROMESSA DE CAUSAR MAL INJUSTO À VÍTIMA DEMONSTRADA. EFETIVO TEMOR CONFIGURADO. EMBRIAGUEZ VOLUNTÁRIA QUE NÃO AFASTA A RESPONSABILIDADE PENAL. INTELIGÊNCIA DO ART. 28, INCISO II, DO CP. DOLO ESPECÍFICO DEMONSTRADO. TIPICIDADE DA CONDUTA. CONDENAÇÃO MANTIDA. DOSIMETRIA. PEDIDO DE SUBSTITUIÇÃO DA PENA RESTRITIVA DE DIREITO. VEDAÇÃO EXPRESSA DO ART. 44, INCISO I, DO CP. INAPLICÁVEL A TRANSAÇÃO PENAL. SENTENÇA MANTIDA POR SEUS PRÓPRIOS FUNDAMENTOS. RECURSO PARCIALMENTE CONHECIDO E, NA PARTE CONHECIDA, NÃO PROVIDO. 1. Relatório Relatório dispensado nos termos do Enunciado 92 do Fonaje. 2. Voto Inicialmente, verifica-se que em suas razões recursais que o réu requer a concessão da gratuidade da justiça. Todavia, conforme posicionamento desta Corte, a análise das condições financeiras do réu e sua possibilidade de arcar com as despesas processuais, sem prejuízo de seu sustento próprio ou de sua família, é matéria de competência do Juízo da Execução. Nesse sentido, veja-se: APELAÇÃO CRIMINAL. CRIME DE RESISTÊNCIA (ARTIGO 329 DO CÓDIGO PENAL). RECURSO DA DEFESA. PLEITO DE CONCESSÃO DE JUSTIÇA GRATUITA. NÃO CONHECIMENTO. MATÉRIA ATINENTE AO JUÍZO DA EXECUÇÃO.(...)(TJPR - 6ª Turma Recursal dos Juizados Especiais - 0011524- 84.2021.8.16.0018 - Maringá - Rel.: JUIZ DE DIREITO DA TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS JAIME SOUZA PINTO SAMPAIO - J. 08.08.2025) Portanto, tal pedido não merece conhecimento. No mérito, o recurso comporta conhecimento, ante a presença dos pressupostos objetivos (previsão legal, forma prescrita em lei, tempestividade, inexistência de fato impeditivo ou extintivo do poder de recorrer) e subjetivos (interesse e legitimidade). Requer a defesa a absolvição da ré em razão da insuficiência probatória e atipicidade da conduta. Novamente, sem razão. O feito versa sobre o delito previsto no art. 147 do Código Penal, em detrimento do acusado, pela prática, em tese, do seguinte fato: “Na data de 22 de fevereiro de 2024, por volta das 18h40min, neste município e comarca de Marmeleiro/PR, por meio do aplicativo ‘whatsapp’, o denunciado ALAN TESTA PASTORIZA, agindo com consciência e vontade, dolosamente, ameaçou de causar mal injusto e grave a vítima Jorge Marcelo Fernandes, mediante o envio de mensagens de áudio, dizendo que ‘você é de coragem, Jorge, só não te quebrei os dentes porque tinha compromisso, não podia, mas oportunidade não vai faltar, você lembre disso ... então se prepare piá, você arrumou um inimigo, seu bosta, escute só onde seus dentes vão parar, seu merda e se você debochar, piá, eu te acho hoje mesmo, filha da puta”; “seu traficante de merda, você é um traficante de merda, rapaz, todo mundo sabe, cara, que você um traficante, pelego, jáguara, você vai se foder ainda, cara, tá ligado o peso você carrega ai da terra, vagabundo, sem vergonha” (cf. boletim de ocorrência nº 2024 /247469 – mov. 8.1; termo de depoimento – mov. 8.3; auto de constatação – mov. 8.4; áudios – movs. 8.5/6).” (mov. 14.1 – autos principais). Nesse contexto, após o decorrer da instrução processual, assim restou fundamentada a sentença condenatória, a qual adoto como razão de decidir: “Compulsando os autos, verifica-se que o conjunto probatório reside nos elementos a seguir descritos. Consta no boletim de ocorrência nº 2024/247469 (mov. 8.1): “[...]COMPARECEU NESTA UNIDADE DE POLICIA JUDICIARIA O NOTICIANTE JORGE MARCELO FERNANDES, RG 7722745-8 SESP PR, (46) 9925-2692, INFORMANDO QUE NA DATA DE 22 DE FEVEREIRO DE 2024, POR VOLTA DAS 18H40, RECEBEU ÁUDIOS COM TEOR DE AMEAÇAS E DIFAMAÇÃO, ENCAMINHADOS POR MEIO DO APLICATIVO ‘WHATSAPP’ PELO NUMERAL (46) 98832-0651, O QUAL O NOTICIANTE INFORMOU QUE PERTENCE A ALAN TESTA PASTORIZA RG 9014142 SESP PR. ALÉM DISSO, INFORMA QUE VERIFICOU QUE, NO DOMINGO ANTERIOR A DATA INFORMADA, DIA 18 DE FEVEREIRO DE 2024, ALAN TERIA DANIFICADO O PORTÃO DA RESIDÊNCIA DA GENITORA DO NOTICIADO COM ALGUM OBJETO. ADEMAIS, NOTICIANTE COMUNICOU QUE JÁ REGISTROU BOLETIM DE OCORRÊNCIA EM DESFAVOR DO NOTICIADO HÁ POUCOS DIAS, BEM COMO HÁ CÂMERAS DE SEGURANÇA DE VIZINHOS QUE GRAVOU A AÇÃO DE ALAN NO PORTÃO DA RESIDÊNCIA. AINDA, O NOTICIANTE INFORMOU QUE DESEJA REPRESENTAR EM DESFAVOR DO NOTICIADO.[...]” Em juízo, a vítima JORGE MARCELO FERNANDES afirmou que (mov. 49.1): “[...]que no dia ele entrou na propriedade da mãe, alterado; que foi pela manhã, adentrou sem ser convidado; chegou na janela da cozinha, rasgou a cortina abrindo, onde se encontrava a mãe e a filha logo cedo; que se ele não estivesse em 10 minutos na casa dos pais dele, ele iria arcar com as consequencias; que depois a mãe chamou; que continuou dormindo; que ele ligou pelo WhatsApp da mãe dele, tentando intimidar e fazer ameaças; que teve um relacionamento com a excompanheira dele; que é por ciúmes; que alega que ele é talarico; que ele é corno;que até hoje tem medo dele; que ele fez ameaças verbais, recados de amigos, WhatsApp e áudio; que ele nunca tentou resgatar a filha em comum; que não fizeram uso de tóxicos no dia do boletim de ocorrência.[...]” Interrogado em Juízo, o réu ALAN TESTA PASTORIZA negou os fatos, relatando que (mov. 49.2): “ [...]que a vítima sempre tinha cocaína com ele; que ele entrou na vida deles e o relacionamento com a esposa virou um inferno; que se separou; que um dia estava vindo do trabalho e viu o carro da ex-esposa na casa dele; que ele induziu a exesposa a pedir medida protetiva; que as crianças estavam lá com roupas viradas e com fome; que foi na casa da ex-esposa, ver os filhos como estavam, mandou os áudios; que não estava sob efeito de álcool ou substância ilícita; que foi mais uma espécie de honra, por saber que ele estava vendendo droga para a ex- esposa; que a menina estava com fome; que ele é irônico, que ele abusa na casa dele; que mandou o áudio agindo em defesa do filho; que não sabe se ele se relaciona com a ex-esposa; que hoje está com outra parceira e não usa droga. [...] ” (...) A materialidade do crime noticiado encontra-se comprovada pelo boletim de ocorrência nº 2024/247469 (mov. 8.1), termos de declarações (mov. 8.3), áudios (mov. 8.5/6), bem como pelos depoimentos colhidos na fase inquisitorial e na instrução do presente feito. (...) Consoante se infere, a vítima foi alvo de ameaça por parte do réu, o qual encaminhou um áudio ameaçando a vítima. Aliás, importante destacar que a vítima, ao ser ouvida em Juízo, confirmou que sentiu medo da mensagem. O réu, Alan Testa Pastoriza, foi identificado como o autor das ameaças, conforme relatado na queixa da vítima, Jorge Marcelo Fernandes, que mencionou ter recebido áudios com ameaças e difamações. Nos áudios (mov. 8.5/6), o réu, de forma explícita, faz ameaças contra a integridade da vítima e de sua família. A autoria do réu está confirmada, uma vez que o número do telefone utilizado para o envio das mensagens corresponde àquele indicado no boletim de ocorrência como pertencente ao acusado. Em juízo, o réu confirmou que enviou os áudios, mas alegou que as mensagens foram enviadas em um contexto de defesa de seus filhos e por questões relacionadas ao relacionamento com a ex-companheira, o que não afasta a tipificação do crime. O réu afirmou que suas ações foram motivadas por ciúmes e por perceber que a vítima estaria colocando em risco seus filhos. Porém, esses argumentos não afastam a conduta criminosa de ameaçar a integridade física e psicológica da vítima, fato que configura o crime de ameaça, conforme disposto no artigo 147 do Código Penal.” (mov. 63.1 – autos principais). Em que pese a alegação defensiva de não haver provas suficientes, extrai-se dos autos elementos suficientes que apontam de forma contundente ter o apelante incorrido na prática delitiva. Sabe-se que o crime de ameaça se trata de crime formal, consumando-se “(...) no momento em que a vítima toma conhecimento da ameaça, independentemente de sua intimidação. Basta que seja ela idônea para intimidar” (Mirabete, Código Penal Interpretado, 10ª edição, 2019, Editora Atlas, pág. 683). Nota-se, pois, que houve clara ameaça a vítima, na medida em que as provas nos autos demonstram que o acusado tinha o objetivo de causar temor nas vítimas ao dizer “só não te quebrei os dentes porque tinha compromisso, não podia, mas oportunidade não vai faltar, você lembre disso ... então se prepare piá, você arrumou um inimigo, seu bosta, escute só onde seus dentes vão parar, seu merda e se você debochar, piá, eu te acho hoje mesmo, filha da puta”", fatos que evidenciam a consumação do delito, tal como descrito na denúncia. Vale destacar, ainda, que eventual animosidade anterior entre o réu e a vítima, por si só, não é apta para retirar a credibilidade da palavra da vítima ou mesmo afastar o dolo do agente. Neste ponto, destaca-se que em crimes de ameaça a palavra da vítima possui especial relevância. Veja-se: APELAÇÃO CRIMINAL. AMEAÇA (ART. 147 DO CÓDIGO PENAL). SENTENÇA CONDENATÓRIA. RECURSO DA DEFESA. PLEITO DE ABSOLVIÇÃO COM FUNDAMENTO NO PRINCÍPIO DO IN DUBIO PRO REO. NÃO ACOLHIMENTO. AUTORIA E MATERIALIDADE COMPROVADAS. DECLARAÇÕES DA VÍTIMA FIRMES E COERENTES, CORROBORADAS POR TESTEMUNHAS PRESENCIAIS. VONTADE DE INTIMIDAR E FUNDADO TEMOR DEMONSTRADOS.PALAVRA DA VÍTIMA COM ESPECIAL RELEVÂNCIA PROBATÓRIA. RECURSO PARCIALMENTE CONHECIDO E DESPROVIDO.I. CASO EM EXAME1. Apelação Criminal interposta em face da sentença condenatória que ao qual impôs ao Réu pena de 1 (um) mês de detenção pela prática do crime de ameaça, tipificado no art. 147 do Código Penal, em decorrência de conduta em que o Apelante, portando um facão, ameaçou a vítima ao impedir sua passagem em uma estrada rural, gerando fundado temor. O Apelante requereu a absolvição com fundamento no princípio do in dubio pro reo, sustentando a ausência de provas suficientes para a condenação.II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO1. Consiste em saber se a sentença condenatória proferida em razão da prática do crime de ameaça deve ser mantida, considerando a comprovação da autoria e materialidade do delito, bem como a ausência de provas suficientes que justifiquem a absolvição do Apelante.III. RAZÕES DE DECIDIR1. A autoria e a materialidade do crime de ameaça foram comprovadas por meio de depoimentos firmes e coerentes da vítima e testemunhas.2. O Apelante não apresentou provas suficientes que afastassem a condenação, sendo a palavra da vítima considerada com especial relevância probatória.3. O princípio do in dubio pro reo não tem cabimento, pois restou demonstrado o fundado temor da vítima diante das ameaças proferidas pelo réu.IV. DISPOSITIVO E TESE1. Apelação parcialmente conhecida e desprovida.Tese de julgamento: A prática do crime de ameaça, tipificada no art. 147 do Código Penal, exige a comprovação da autoria e materialidade do delito, sendo suficiente a demonstração do fundado temor da vítima, corroborado por depoimentos firmes e coerentes, para a manutenção da condenação, não se admitindo a absolvição com base no princípio do in dubio pro reo quando há provas robustas nos autos. (TJPR - 6ª Turma Recursal dos Juizados Especiais - 0011925-64.2023.8.16.0131 - Pato Branco - Rel.: JUIZ DE DIREITO DA TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS AUSTREGESILO TREVISAN - J. 06.02.2026) Ademais, embora a defesa alegue que a apelante estava alterada devido ao seu estado de embriaguez, tal situação não tem o condão de afastar sua responsabilidade criminal, especialmente porque não há qualquer indicativo de que seu estado não tenha decorrido do próprio desejo do réu. Destaca-se que o Código Penal autoriza a punição do autor do delito que em um momento anterior à prática da conduta delitiva tenha se colocado, conscientemente, em estado de embriaguez ou drogadição. Estabelece o art. 28, inciso II, do Código Penal, que “não excluem a imputabilidade penal: (...) II - a embriaguez, voluntária ou culposa, pelo álcool ou substância de efeitos análogos”. Desse modo, resta evidenciada a prática dos delitos por parte do acusado, sendo a manutenção da condenação pela prática de ameaça medida que se impõe. Por fim, incabível a substituição de pena ao acusado, uma vez que o delito foi praticado mediante violência e grave ameaça à pessoa, circunstância que afasta o preenchimento do requisito previsto no art. 44, inciso I, do Código Penal. Da mesma forma, inaplicável a aplicação da transação penal após a prolação da sentença condenatória. Trata-se de benefício de natureza pré-processual, cuja oportunidade de oferecimento se esgota na audiência preliminar. In casu, o Ministério Público deixou de apresentar a proposta diante do não preenchimento dos requisitos legais pelo acusado, conforme evidenciado por sua certidão de antecedentes. Desse modo, além de intempestivo, o pleito mostra-se juridicamente inviável, ante a ausência dos pressupostos legais. Pelo exposto, voto no sentido de CONHECER EM PARTE, e na parte conhecida, NEGAR PROVIMENTO ao recurso de apelação criminal, conforme as razões acima expostas, mantendo a r. sentença por seus próprios fundamentos, nos termos do art. 82, §5º da Lei nº 9099/1995. Condeno a ré ao pagamento das custas, nos termos no art. 28, parágrafo único, da Instrução Normativa nº 01/2015 e artigo 14, da Lei Estadual nº 18.413/2014, cabendo ao Juízo da Execução eventual possibilidade de concessão do benefício da Gratuidade de Justiça. Ante o exposto, esta 6ª Turma Recursal dos Juizados Especiais resolve, por unanimidade dos votos, em relação ao recurso de ALAN TESTA PASTORIZA, julgar pelo(a) Com Resolução do Mérito - Conhecimento em Parte e Não-Provimento ou Denegação nos exatos termos do voto. O julgamento foi presidido pelo (a) Juiz(a) Gisele Lara Ribeiro, com voto, e dele participaram os Juízes Haroldo Demarchi Mendes (relator) e Austregésilo Trevisan. 29 de maio de 2026 Haroldo Demarchi Mendes Juiz (a) relator (a)
|