Íntegra
do Acórdão
Ocultar
Acórdão
Atenção: O texto abaixo representa a transcrição de Acórdão. Eventuais imagens serão suprimidas.
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ 6ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS Recurso Inominado Cível n° 0019362-03.2025.8.16.0030 RecIno 2º Juizado Especial da Fazenda Pública de Foz do Iguaçu Recorrente(s): Município de Foz do Iguaçu/PR Recorrido(s): LEANDRO SIQUEIRA DE CARVALHO Relator: Marcos José Vieira RECURSO INOMINADO. AÇÃO DE COBRANÇA. HORAS EXTRAS DECORRENTES DO TRABALHO EM TURNOS (12X36). SERVIDOR PÚBLICO DO MUNICÍPIO DE FOZ DO IGUAÇU. SENTENÇA DE PROCEDÊNCIA. INSURGÊNCIA RECURSAL DO MUNICÍPIO. JORNADA ORDINÁRIA DE TRABALHO DE 40 HORAS SEMANAIS. REGIME DE TRABALHO EM TURNOS QUE ACARRETA A EXTRAPOLAÇÃO DA JORNADA EM OITO HORAS MENSAIS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO PELO MUNICÍPIO DE QUE FORAM ELAS PAGAS OU FRUÍDAS MEDIANTE COMPENSAÇÃO. ÔNUS QUE LHE COMPETIA, CONFORME O ARTIGO 373, INCISO II, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL. TRABALHO EXTRAORDINÁRIO EXERCIDO PELO SERVIDOR. SENTENÇA MANTIDA. RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO. RELATÓRIO Leandro Siqueira de Carvalho, servidor público, propôs em face do Município de Foz do Iguaçu a presente ação, visando a que lhe sejam pagas horas extras decorrentes do regime de trabalho em turnos (12x36). A sentença julgou procedente o pedido. Daí a interposição de recurso inominado pela Municipalidade, objetivando a reforma da sentença. Facultada a apresentação das contrarrazões, subiram os autos a esta Turma. É o relatório. VOTO 1. Articula-se nas razões de recurso que o regime 12x36 estaria previsto no Decreto Municipal n. 20.437/2011, que autorizaria a compensação em banco de horas. Sem razão a Municipalidade. Ninguém duvida que o regime de trabalho em turnos (12x36) e o banco de horas extras são, em si, perfeitamente legítimos: encontram-se previstos nos arts. 10 e 12 do Decreto Municipal n. 20.437/2011, ato normativo esse que visa a regulamentar o art. 79 da Lei Municipal n. 1.997/1996. O problema, contudo, é de outra ordem: a Administração, por considerar que o regime de trabalho 12x36 não acarreta a extrapolação da jornada mensal de 200 horas, não lançou as horas extras laboradas além da 40ª hora semanal no banco de horas. Tanto que o Município não apresentou com a resposta o extrato demonstrativo das horas acumuladas nesse banco. Do mesmo modo, tampouco comprovou que ao servidor foi oportunizado fruir a compensação dentro do prazo de doze meses estabelecido no § 2º do art. 12 do Decreto n. 20.437/2011. Repise- se que esse ônus probatório lhe era imposto pelo art. 373, inciso II, do CPC. No caso, está cabalmente comprovada a alegação de que a parte autora, em razão do regime de trabalho em turnos (12x36), realizou horas extras que extrapolaram a jornada legal de 40 horas semanais. É que, laborando 12 horas com folga seguida de 36 horas, daí resultará que o servidor trabalha em uma semana 48 horas e, na seguinte, 36 horas, e assim sucessivamente. Ou seja, em pelo menos duas semanas mensais intercaladas, haverá a extrapolação da jornada ordinária em 4 horas semanais (ao todo, 8 horas por mês). Improcedente, ademais, a alegação segundo a qual o regime 12x36 seria um “sistema de compensação de jornada em si mesmo, autônomo e que não se confunde com a jornada semanal padrão”. De fato, a autorização legal destina-se a autorizar a implantação do trabalho em turnos, com o excedente da jornada laboral ordinária sendo compensado no período subsequente de descanso. Daí não se segue, entretanto, possa Administração, uma vez extrapolado o limite de horas semanais previsto em lei (40 horas semanais, no caso), negar-se a pagar ao servidor o trabalho prestado como horas extras. Acolher essa escusa implicaria ofensa à garantia prevista no art. 7º, inciso XVI, da CF, a qual é extensível aos servidores públicos por força do § 3º do art. 39 da mesma Constituição. Nesse sentido é o entendimento da 4ª e da 6ª Turmas Recursais: RECURSO INOMINADO. AÇÃO DE COBRANÇA. HORAS EXTRAS. SERVIDORA PÚBLICA DO MUNICÍPIO DE FOZ DO IGUAÇU. AUXILIAR DE ENFERMAGEM. SENTENÇA DE PROCEDÊNCIA. INSURGÊNCIA RECURSAL DO MUNICÍPIO. REGIME DE 12X36. JORNADA DE TRABALHO DE 40 HORAS SEMANAIS. LEI MUNICIPAL Nº 1.997/1996. COMPENSAÇÃO BISSEMANAL. DUAS HORAS SEMANAIS EXCEDENTES. ADICIONAL DE PENOSIDADE QUE NÃO TEM FUNÇÃO DE COMPENSAÇÃO DE HORAS EXTRAS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO PELA PARTE RÉ QUANTO À COMPENSAÇÃO POR FOLGA OU BANCO DE HORAS. ÔNUS QUE COMPETIA À PARTE REQUERIDA, CONFORME O ARTIGO 373, INCISO II, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL. TRABALHO EXTRAORDINÁRIO EXERCIDO PELA SERVIDORA. SENTENÇA MANTIDA POR SEUS PRÓPRIOS FUNDAMENTOS. APLICAÇÃO DO ARTIGO 46, DA LEI Nº 9099/95. RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO. (TJPR - 6ª Turma Recursal dos Juizados Especiais - 0005920-67.2025.8.16.0030 - Foz do Iguaçu - Rel.: JUIZ DE DIREITO DA TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS JAIME SOUZA PINTO SAMPAIO - J. 29.09.2025). RECURSO INOMINADO. AÇÃO DE COBRANÇA DE HORAS EXTRAS. SERVIDOR PÚBLICO DO MUNICÍPIO DE FOZ DO IGUAÇU. SENTENÇA DE PROCEDÊNCIA. INSURGÊNCIA RECURSAL DA PARTE REQUERIDA. ENFERMEIRO. HORAS EXTRAS. REGIME DE 12X36. JORNADA DE TRABALHO DE 40 HORAS SEMANAIS. LEI MUNICIPAL Nº 1.997/1996. COMPENSAÇÃO BISSEMANAL. DUAS HORAS SEMANAIS EXCEDENTES. ADICIONAL DE PENOSIDADE QUE NÃO TEM FUNÇÃO DE COMPENSAÇÃO DE HORAS EXTRAS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO PELA PARTE RÉ QUANTO À COMPENSAÇÃO POR FOLGA OU BANCO DE HORAS. ÔNUS QUE COMPETIA À PARTE REQUERIDA, CONFORME O ARTIGO 373, II, DO CPC. TRABALHO EXTRAORDINÁRIO EXERCIDO PELO SERVIDOR. DEVER DE INDENIZAÇÃO. LIMITAÇÃO TEMPORAL DO PAGAMENTO. INOVAÇÃO RECURSAL. NÃO CONHECIMENTO DESTA PARTE. CÁLCULO DERRADEIRO EM FASE DE LIQUIDAÇÃO. SENTENÇA MANTIDA POR SEUS PRÓPRIOS FUNDAMENTOS. APLICAÇÃO DO ART. 46 DA LEI 9099/95. RECURSO CONHECIDO EM PARTE E DESPROVIDO (TJPR - 4ª Turma Recursal - 0028342-70.2024.8.16.0030 - Foz do Iguaçu - Rel.: JUIZ DE DIREITO SUBSTITUTO DANIEL TEMPSKI FERREIRA DA COSTA - J. 17.06.2025). De resto, anote-se que a só circunstância de a Municipalidade pagar à parte autora o adicional de penosidade, nos termos do art. 80 da Lei Municipal n. 1.997/1996, não lhe retira o direito de receber pelas horas trabalhadas além da jornada padrão. É que a concretização da garantia fundamental prevista no inciso XXIII (“adicional de remuneração para as atividades penosas”) do art. 7º da CF não anula nem substitui a fruição do direito assegurado aos servidores no inciso XVI do mesmo dispositivo constitucional. 2. Do exposto, voto no sentido de conhecer e negar provimento ao recurso. Desprovido o recurso, deixo de condenar o Município de Foz do Iguaçu ao pagamento de custas processuais, por ser beneficiário da isenção prevista no art. 5º da Lei Estadual nº 18.413/2014-PR. Todavia, condeno-o ao pagamento de honorários advocatícios, que fixo em 15% sobre o valor atualizado da causa, nos termos do art. 55 da Lei nº 9.099/1995. Ante o exposto, esta 6ª Turma Recursal dos Juizados Especiais resolve, por maioria dos votos, em relação ao recurso de Município de Foz do Iguaçu/PR, julgar pelo(a) Com Resolução do Mérito - Não-Provimento nos exatos termos do voto. O julgamento foi presidido pelo (a) Juiz(a) Austregésilo Trevisan, com voto, e dele participaram os Juízes Gisele Lara Ribeiro (relator vencido) e Marcos José Vieira (relator designado). 27 de fevereiro de 2026 Marcos José Vieira Juiz relator
|