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Acórdão
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TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ 2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS Mandado de Segurança Cível n° 0002742-35.2026.8.16.9000 MS 2º Juizado Especial Cível de Foz do Iguaçu Impetrante(s): DARCI JOÃO ZORZI Impetrado(s): JUIZ DE DIREITO DO JUIZADO DE ORIGEM Relator: Vanessa de Souza Camargo MANDADO DE SEGURANÇA. JUIZADO ESPECIAL CÍVEL. INDEFERIMENTO DA FORMAÇÃO DE LITISCONSÓRCIO PASSIVO FACULTATIVO. AÇÃO AJUIZADA EM FACE DE MÚLTIPLAS INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS. ALEGAÇÃO DE DESCONTOS INDEVIDOS INCIDENTES SOBRE O MESMO BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. NECESSIDADE DE OBSERVÂNCIA DOS PRINCÍPIOS DA ECONOMIA PROCESSUAL, DA CELERIDADE E DA EFETIVIDADE DA PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. POSSIBILIDADE DE PROCESSAMENTO CONJUNTO DA DEMANDA. DIREITO LÍQUIDO E CERTO EVIDENCIADO. SEGURANÇA CONCEDIDA. Relatório dispensado, nos termos do Enunciado nº 92 do Fonaje. Conheço do mandado de segurança impetrado, vez que presentes os pressupostos de admissibilidade. O Mandado de Segurança tem como escopo, nos termos do art. 5º, inciso LXIX da Constituição Federal, a proteção de “direito líquido e certo, não amparado por habeas- corpus ou habeas-data, quando o responsável pela ilegalidade ou abuso de poder for autoridade pública ou agente de pessoa jurídica no exercício de atribuições do Poder Público”. Cumpre destacar, ainda, que conforme entendimento do Supremo Tribunal Federal, “Não cabe mandado de segurança das decisões interlocutórias exaradas em processos submetidos ao rito da Lei n. 9.099/95” (STF, RE 576.847/BA, Rel. Min. Eros Grau, Tribunal Pleno, DJE de 20/05/2009), salvo em situações excepcionais, quando se estiver diante de decisão manifestamente teratológica, ilegal ou abusiva. No presente caso, verifica-se a excepcionalidade apta a justificar a impetração do writ, uma vez que a decisão impugnada indeferiu a formação do litisconsórcio passivo facultativo ao fundamento de que cada instituição financeira mantém relação jurídica distinta com a parte Autora, não estando presentes os requisitos previstos no art. 113 do CPC. Cumpre ressaltar que, para a concessão da segurança pretendida, exige- se a presença concomitante de direito líquido e certo e a prática de ato ilegal ou abusivo por autoridade pública. Sustenta a Impetrante que a decisão é ilegal, pois os pedidos formulados na ação originária decorrem de uma mesma situação fática, consistente na realização de descontos supostamente indevidos incidentes sobre seu benefício previdenciário, circunstância que autoriza a formação do litisconsórcio facultativo, nos termos do art. 113 do CPC. Aduz, ainda, que o indeferimento do litisconsórcio afronta os princípios da economia processual, da celeridade e da segurança jurídica. Compulsando os autos, verifica-se que assiste razão à Impetrante. Conforme se extrai da decisão impugnada (mov. 9.1 dos autos de origem), a formação do litisconsórcio foi afastada sob o fundamento de que cada instituição financeira indicada no polo passivo mantém relação jurídica própria e independente com a parte Autora, decorrente de contratos distintos, inexistindo comunhão de direitos ou obrigações apta a justificar o processamento conjunto da demanda. Todavia, em que pese a fundamentação adotada, verifica-se que a controvérsia extrapola a mera similitude de teses jurídicas. Isso porque a pretensão deduzida na ação originária decorre de um mesmo contexto fático narrado pela parte Impetrante, consistente na alegação de realização de múltiplos descontos indevidos incidentes sobre o mesmo benefício previdenciário, decorrentes de contratos cuja celebração é contestada. Nessa perspectiva, evidencia-se a afinidade de questões de fato e de direito apta a autorizar a formação do litisconsórcio facultativo, nos termos do art. 113, III, do Código de Processo Civil. Embora cada instituição financeira figure em contrato próprio, a causa de pedir apresenta substancial identidade fática, pois a narrativa central da demanda está fundada na alegada irregularidade dos descontos incidentes sobre o mesmo benefício previdenciário e na inexistência das contratações que lhes deram origem. A análise das controvérsias, portanto, não se mostra inteiramente dissociada, havendo relevante ponto comum que justifica o processamento conjunto. Além disso, a fragmentação da controvérsia implicaria a necessidade de ajuizamento de múltiplas demandas para discussão de questões oriundas do mesmo contexto fático, impondo ao jurisdicionado e ao próprio Poder Judiciário a repetição de atos processuais, em descompasso com os princípios da economia processual, da celeridade e da eficiência que orientam o microssistema dos Juizados Especiais. Ainda, importante destacar que o reconhecimento do litisconsórcio facultativo não acarreta qualquer prejuízo ao exercício do contraditório pelas instituições financeiras demandadas, as quais poderão apresentar defesa individualizada e produzir as provas que entenderem pertinentes relativamente às respectivas relações jurídicas. Também não se verifica, ao menos neste momento processual, circunstância apta a demonstrar complexidade incompatível com a tramitação da demanda perante o Juizado Especial, razão pela qual o indeferimento do litisconsórcio configura restrição indevida ao exercício do direito de ação da parte Impetrante. Nesse sentido é o entendimento deste E. Tribunal de Justiça em casos análogos: APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER CUMULADA COM INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. INDEFERIMENTO DA PETIÇÃO INICIAL. DESCUMPRIMENTO DE ORDEM DE EMENDA. LIMITAÇÃO DE LITISCONSÓRCIO PASSIVO FACULTATIVO. CONTRATOS DE EMPRÉSTIMO CONSIGNADO. INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS. AFINIDADE DE QUESTÕES DE FATO E DIREITO. VIOLAÇÃO AO DIREITO DE INFORMAÇÃO CONSUMERISTA. AUSÊNCIA DE COMPLEXIDADE QUE JUSTIFIQUE FRAGMENTAÇÃO. ECONOMIA PROCESSUAL. PRINCÍPIO DO ACESSO À JUSTIÇA. ART. 113, § 1º, DO CPC INAPLICÁVEL. SENTENÇA REFORMADA. RECURSO PARCIALMENTE CONHECIDO E PROVIDO. [...] 4. O LITISCONSÓRCIO PASSIVO FACULTATIVO É ADMITIDO QUANDO HOUVER COMUNHÃO DE DIREITOS OU OBRIGAÇÕES, CONEXÃO PELA CAUSA DE PEDIR OU PELO PEDIDO, OU AFINIDADE DE QUESTÕES POR PONTO COMUM DE FATO OU DE DIREITO (ART. 113 DO CPC). 5. VERIFICA-SE INEQUIVOCAMENTE A AFINIDADE DE QUESTÕES POR PONTO COMUM DE FATO E DIREITO: AMBAS AS INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS SÃO ACUSADAS DE REALIZAR DESCONTOS CONSIGNADOS SEM DEVIDA CONTRATAÇÃO, CONFIGURANDO IDÊNTICA VIOLAÇÃO AO DIREITO DE INFORMAÇÃO CONSUMERISTA PREVISTO NO ART. 6º, III, DO CDC. 6. A CAUSA DE PEDIR PRÓXIMA É UNIFORME (RECUSA DE AMBOS OS BANCOS EM ENTREGAR CONTRATOS SOLICITADOS), ENQUANTO A CAUSA DE PEDIR REMOTA ENCONTRA FUNDAMENTO NA VIOLAÇÃO AO DEVER DE INFORMAÇÃO E TRANSPARÊNCIA NAS RELAÇÕES CONSUMERISTAS, COM FUNDAMENTO JURÍDICO IDÊNTICO E PEDIDOS CUMULADOS UNIFORMES. 7. O ART. 113, § 1º, DO CPC NÃO ENCONTRA APLICAÇÃO AO CASO CONCRETO, POIS A INCLUSÃO DE APENAS DOIS RÉUS PARA DISCUSSÃO DE QUATRO CONTRATOS CONSIGNADOS NÃO CARACTERIZA COMPLEXIDADE QUE JUSTIFIQUE FRAGMENTAÇÃO PROCESSUAL, SENDO A INSTRUÇÃO PROBATÓRIA IDÊNTICA PARA AMBAS AS INSTITUIÇÕES. 8. A CUMULAÇÃO ATENDE AOS PRINCÍPIOS DA ECONOMIA PROCESSUAL E EVITA O RISCO DE DECISÕES CONFLITANTES SOBRE FATOS CONEXOS, NÃO HAVENDO MULTIPLICIDADE DE QUESTÕES QUE COMPROMETA A CELERIDADE OU DIFICULTE A DEFESA. [...] TESE DE JULGAMENTO: É CABÍVEL O LITISCONSÓRCIO PASSIVO FACULTATIVO ENTRE INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS EM AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER CUMULADA COM INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS QUANDO HÁ AFINIDADE DE QUESTÕES DE FATO E DIREITO DECORRENTES DA VIOLAÇÃO AO DIREITO DE INFORMAÇÃO CONSUMERISTA, NÃO SE APLICANDO A LIMITAÇÃO DO ART. 113, § 1º, DO CPC QUANDO A INCLUSÃO DE POUCOS RÉUS NÃO CARACTERIZA COMPLEXIDADE QUE COMPROMETA A CELERIDADE PROCESSUAL. [...] (TJPR - 13ª CÂMARA CÍVEL - 0002012-35.2025.8.16.0019 - PONTA GROSSA - REL.: DESEMBARGADOR FABIO ANDRE SANTOS MUNIZ - J. 25.07.2025) AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXIGIBILIDADE DO DÉBITO, REPETIÇÃO DO INDÉBITO E DANOS MORAIS. DECISÃO QUE DETERMINOU EMENDA À PETIÇÃO INICIAL PARA PROMOVER AÇÃO CONTRA APENAS UMA INSTITUIÇÃO FINANCEIRA. INTELIGÊNCIA DO ARTIGO 113 DO CPC. LITISCONSÓRCIO FACULTATIVO. HÁ AFINIDADE DE QUESTÕES POR PONTO COMUM DE FATO E DE DIREITO. PRINCÍPIO DA CELERIDADE E DA ECONOMIA PROCESSUAL. DECISÃO REFORMADA. RECURSO E PROVIDO. (TJPR - 13ª CÂMARA CÍVEL - 0029161-68.2022.8.16.0000 - SÃO JOSÉ DOS PINHAIS - REL.: JUIZ DE DIREITO SUBSTITUTO EM SEGUNDO GRAU MARCOS VINICIUS DA ROCHA LOURES DEMCHUK - J. 27.01.2023) APELAÇÃO CÍVEL – AÇÃO DE RESTITUIÇÃO DE VALORES – INICIAL INDEFERIDA POR INÉPCIA – DETERMINAÇÃO DE DESMEMBRAMENTO DE LITISCONSÓRCIO PASSIVO FACULTATIVO E EMENDA À INICIAL PARA ESCOLHA DE RÉU PARA PROSSEGUIMENTO DA DEMANDA – INSURGÊNCIA DA AUTORA – ACOLHIMENTO – FORMULAÇÃO DE PRETENSÃO REVISIONAL LASTREADA NO MESMO FUNDAMENTO JURÍDICO PARA REVISAR CONTRATOS DE MESMA NATUREZA CONTRA INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS DIFERENTES, COM QUEM FIRMOU CONTRATOS INDIVIDUALMENTE – HIPÓTESE DE LITISCONSÓRCIO FACULTATIVO POR AFINIDADE DE QUESTÕES DE FATO E DE DIREITO (CPC, ART. 113, II) – REQUISITOS NORMATIVOS PARA DESMEMBRAMENTO DO LITISCONSÓRCIO (CPC, ART. 113, §1º) – NÃO PREENCHIMENTO – NÃO IDENTIFICAÇÃO DE PREJUÍZO À SOLUÇÃO RÁPIDA DO PROCESSO OU DIFICULDADE DE DEFESA OU CUMPRIMENTO DE SENTENÇA – DEMANDA DE BAIXA COMPLEXIDADE, QUE NÃO ENSEJA MAIOR DILAÇÃO PROBATÓRIA E CUJA TESE JURÍDICA JÁ TEM SIDO OBJETO DE INÚMEROS PRECEDENTES NESTE TRIBUNAL – DESMEMBRAMENTO QUE ENSEJARIA PULVERIZAÇÃO E MASSIFICAÇÃO DE DEMANDAS BANCÁRIAS SEM NECESSIDADE REAL – DENSIFICAÇÃO DE PRINCÍPIOS COMO DE ECONOMIA PROCESSUAL, RAZOABILIDADE, PROPORCIONALIDADE E INSTRUMENTALIDADE PROCESSUAL – SOLUÇÃO UNIFICADA QUE MELHOR ATENDE À RACIONALIZAÇÃO NA ADMINISTRAÇÃO DA JUSTIÇA CIVIL, EVITANDO MULTIPLICAÇÃO DE AÇÕES IDÊNTICAS, QUANDO POSSÍVEL – SENTENÇA ANULADA, COM DETERMINAÇÃO DE RETORNO DOS AUTOS PARA REGULAR PROSSEGUIMENTO, SEM DESMEMBRAMENTO DO POLO PASSIVO. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO. (TJPR - 14ª CÂMARA CÍVEL - 0016103-32.2018.8.16.0034 - PIRAQUARA - REL.: DESEMBARGADORA THEMIS DE ALMEIDA FURQUIM - J. 05.12.2022) Diante desse contexto, conclui-se pela existência de direito líquido e certo à formação do litisconsórcio passivo facultativo na hipótese dos autos, impondo-se a concessão da segurança para cassar a decisão impugnada e determinar o regular prosseguimento da demanda originária, com a manutenção das instituições financeiras inicialmente indicadas no polo passivo. Ante o exposto, voto pelo CONHECIMENTO do mandado de segurança e pela CONCESSÃO DA SEGURANÇA, para revogar a decisão liminar anteriormente proferida nestes autos e anular a decisão constante do mov. 9.1 dos autos nº 0009475- 58.2026.8.16.0030, determinando o regular prosseguimento da demanda originária com a manutenção das instituições financeiras originalmente indicadas no polo passivo. Sem custas e honorários, nos termos da legislação de regência do mandado de segurança. Resumo em linguagem acessível: A Impetrante ajuizou ação contra diversas instituições financeiras alegando descontos indevidos realizados em seu benefício previdenciário. Verificou-se que as alegações possuem origem em um mesmo contexto fático, o que autoriza o processamento conjunto da demanda e prestigia a economia processual. Por essa razão, a segurança foi concedida para permitir a manutenção de todas as instituições financeiras no polo passivo da ação. Ante o exposto, esta 2ª Turma Recursal dos Juizados Especiais resolve, por unanimidade dos votos, em relação ao recurso de DARCI JOÃO ZORZI, julgar pelo (a) Concessão - Segurança nos exatos termos do voto. O julgamento foi presidido pelo (a) Juiz(a) Irineu Stein Junior, sem voto, e dele participaram os Juízes Vanessa De Souza Camargo (relator), Patrícia Di Fuccio Lages De Lima e Alvaro Rodrigues Junior. 04 de agosto de 2026 VANESSA DE SOUZA CAMARGO Juíza Relatora
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