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Acórdão
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TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ 6ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS Recurso Inominado Cível n° 0000609-27.2025.8.16.0085 RecIno Juizado Especial da Fazenda Pública de Grandes Rios Recorrente(s): ANA PAULA MOREIRA DA CRUZ Recorrido(s): Município de Rosário do Ivaí/PR Relator: Marcos José Vieira RECURSO INOMINADO. AÇÃO DE COBRANÇA. SERVIDORA PÚBLICA DO MUNICÍPIO DE ROSÁRIO DO IVAÍ. AGENTE COMUNITÁRIA DE SAÚDE. PISO SALARIAL NACIONAL (EC Nº 120/2022). SENTENÇA QUE AFASTOU SUA UTILIZAÇÃO COMO BASE DE CÁLCULO DO ADICIONAL DE INSALUBRIDADE. INSURGÊNCIA DA AUTORA. ACOLHIMENTO. PISO NACIONAL QUE DEVE CORRESPONDER AO VENCIMENTO BÁSICO DO CARGO. IMPOSSIBILIDADE DE PAGAMENTO MEDIANTE "COMPLEMENTO SALARIAL" PARA FINS DE CÁLCULO DE OUTRAS VANTAGENS. TESE FIXADA PELA TURMA DE UNIFORMIZAÇÃO DE JURISPRUDÊNCIA NO JULGAMENTO DO PUIL N. 2146-85.2025.8.16.9000. CARÁTER VINCULANTE. SENTENÇA PARCIALMENTE REFORMADA. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO. RELATÓRIO Ana Paula Moreira da Cruz, agente comunitária de saúde, ajuizou ação em face do Município de Rosário do Ivaí, visando a que o adicional de insalubridade que lhe é pago seja calculado sobre o vencimento básico do cargo, requerendo também a observância do piso salarial constitucional da categoria, fixado em 2 (dois) salários mínimos pela Emenda Constitucional nº 120/2022. Pediu o pagamento das diferenças apuradas. O Juízo de origem julgou procedente em parte o pedido, reconhecendo o direito ao cálculo do adicional sobre o vencimento do cargo, mas afastou a utilização do piso salarial como parâmetro para tal finalidade, sob o fundamento de que este não se equipara ao vencimento básico. Inconformada, a autora interpôs o presente recurso, buscando a reforma parcial da sentença para que se reconheça que o piso salarial constitui o vencimento básico de sua carreira, devendo servir como base de cálculo para o adicional de insalubridade. Facultada a apresentação das contrarrazões, subiram os autos a esta Turma. É o relatório. VOTO 1. De início, entendo que a parte recorrente faz jus à concessão da gratuidade de justiça. Os documentos acostados ao evento 12 comprovam que a recorrente aufere rendimentos modestos, os quais são perfeitamente compatíveis com a concessão do benefício. 2. No mérito, bem examinados os autos, tenho que o recurso da autora deve ser provido. A controvérsia recursal cinge-se a definir se o piso salarial dos agentes comunitários de saúde deve ser tratado como o vencimento básico da servidora para todos os fins, inclusive para o cálculo do adicional de insalubridade, ou se o Município pode satisfazer a exigência constitucional por meio de um "complemento salarial", mantendo o vencimento básico em patamar inferior. Pois bem. Reza o art. 9º-A da Lei n. 11.350/2006, acrescentado pela Lei n. 12.994/2014: Art. 9º-A. O piso salarial profissional nacional é o valor abaixo do qual a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios não poderão fixar o vencimento inicial das Carreiras de Agente Comunitário de Saúde e de Agente de Combate às Endemias para a jornada de 40 (quarenta) horas semanais. A instituição desse piso salarial nacional decorre de imposição da Constituição. Com o advento da Emenda Constitucional n. 120/2022, acrescentou-se ao art. 198 o § 9º, assim redigido: Art. 198 (…) § 9º O vencimento dos agentes comunitários de saúde e dos agentes de combate às endemias não será inferior a 2 (dois) salários-mínimos, repassados pela União aos Municípios, aos Estados e ao Distrito Federal. Ora, como a competência legislativa para disciplinar o regime jurídico dos servidores que exercem as atividades de Agente Comunitário de Saúde e de Agente de Combate às Endemias foi reservada pelo texto constitucional à União, tenho que à legislação municipal é vedado: a) instituir vencimento básico do cargo em montante inferior a dois salários-mínimos mensais; e b) prever que o adicional de insalubridade e ou quaisquer outras vantagens remuneratórias que incidem sobre o vencimento sejam calculadas sobre base inferior a dois salários- mínimos. A questão restou pacificada pela Turma de Uniformização de Jurisprudência ao julgar o PUIL n. 2146-85.2025.8.16.9000, em acórdão cujos fundamentos estão resumidos nesta ementa: EMENTA: DIREITO CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO. PEDIDO DE UNIFORMIZAÇÃO DE INTERPRETAÇÃO DE LEI. AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE. PISO SALARIAL NACIONAL. EMENDA CONSTITUCIONAL Nº 120/2022. DEFINIÇÃO COMO VENCIMENTO BÁSICO. IMPOSSIBILIDADE DE PAGAMENTO POR COMPLEMENTO. REFLEXOS NAS DEMAIS VERBAS REMUNERATÓRIAS. PEDIDO PROVIDO. I. CASO EM EXAME 1. Pedido de Uniformização de Interpretação de Lei formulado pelo Município de Rondon/PR contra acórdão da 4ª Turma Recursal dos Juizados Especiais do Estado do Paraná, que determinou a adoção do piso salarial previsto na EC nº 120/2022 como vencimento dos Agentes Comunitários de Saúde, bem como a incidência de reflexos nas demais verbas remuneratórias, inclusive progressões e promoções. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2. Há duas questões em discussão: (i) definir se o piso salarial nacional dos Agentes Comunitários de Saúde, previsto no art. 198, § 9º, da Constituição Federal, corresponde ao vencimento básico do cargo ou à remuneração global; (ii) estabelecer se é juridicamente válida a implementação do piso por meio de complementação salarial, sem repercussão automática sobre adicionais, progressões e demais vantagens. III. RAZÕES DE DECIDIR 3. O art. 198, § 9º, da Constituição Federal, com redação dada pela EC nº 120/2022, assegura piso salarial não inferior a dois salários-mínimos aos Agentes Comunitários de Saúde e aos Agentes de Combate às Endemias. 4. A interpretação constitucional do termo “piso salarial” indica que este corresponde ao vencimento básico do cargo, e não à remuneração global, conforme entendimento firmado pelo Supremo Tribunal Federal na ADI 4167. 5. No julgamento do Tema de Repercussão Geral nº 1.132, o Supremo Tribunal Federal reconhece a constitucionalidade da aplicação do piso salarial nacional aos servidores estatutários e define os contornos jurídicos da sua implementação. 6. Verbas genéricas, concedidas indistintamente a todos os servidores da carreira, possuem natureza de contraprestação básica e integram o conceito constitucional de piso salarial. 7. O pagamento do piso salarial por meio de rubrica de complementação, quando concedida de forma geral, descaracteriza o piso como vencimento /base e afronta o comando constitucional. 8. A adoção do piso como vencimento básico implica a incidência de reflexos sobre as demais parcelas remuneratórias calculadas a partir do vencimento, conforme a legislação aplicável. 9. Precedente do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná reconhece que o piso salarial dos Agentes Comunitários de Saúde deve ser considerado como vencimento-base, vedado o pagamento por complementação sem repercussões. IV. DISPOSITIVO E TESE 10. Pedido provido. Tese de julgamento: 1. O piso salarial nacional dos Agentes Comunitários de Saúde e dos Agentes de Combate às Endemias, previsto no art. 198, § 9º, da Constituição Federal, corresponde ao vencimento básico do cargo. 2. É incompatível com o ordenamento jurídico a implementação do piso salarial por meio de complementação genérica destinada apenas a atingir o valor mínimo constitucional. 3. O vencimento básico fixado no patamar do piso nacional serve de base para o cálculo das demais verbas remuneratórias, inclusive adicionais, progressões e gratificações” (PUIL n. 2146-85.2025.8.16.9000, rel. Juiz Álvaro Rodrigues Junior, Turma de Uniformização de Jurisprudência do TJPR, julg. 16/3/2026). Desnecessário lembrar que os acórdãos da TUJ que resolvem a divergência e estabelecem a interpretação do dispositivo legal a ser adotada têm efeitos vinculantes. Essa conclusão resulta da determinação constante do parágrafo único do art. 51 do Regimento Interno das Turmas Recursais “Resolução n. 466/2024 – CSJEs). 3. O caso concreto se ajusta à tese fixada no julgamento do PUIL acima mencionado. É que restou incontroverso que a parte autora, em que pese exercer as atribuições de Agente Comunitário de Saúde, vem recebendo as vantagens remuneratórias calculadas sobre valor inferior ao do piso nacional de dois salários-mínimos, que corresponde ao seu vencimento básico. A sentença recorrida, ao validar a prática do Município de pagar o piso por meio de um "complemento salarial" e afastar sua incidência sobre o adicional de insalubridade, divergiu do entendimento uniformizado e vinculante. A prática de utilizar uma rubrica complementar para atingir o piso, mantendo o vencimento básico em valor inferior, foi expressamente considerada incompatível com o ordenamento jurídico pela Turma de Uniformização. Disso resulta o direito da autora de ter seu vencimento básico fixado no valor do piso nacional de dois salários-mínimos, devendo este valor servir como base de cálculo para o adicional de insalubridade e demais vantagens que sobre o vencimento incidam - com a condenação do Município ao pagamento das diferenças retroativas não prescritas. 4. Do exposto, voto no sentido de conhecer e dar provimento ao recurso inominado, para o fim de reformar parcialmente a sentença e reconhecer que o piso salarial nacional de 2 (dois) salários-mínimos, previsto na EC nº 120 /2022, corresponde ao vencimento básico da autora, devendo servir como base de cálculo para o adicional de insalubridade. Provido o recurso, não há que se falar em condenação ao pagamento de custas e honorários. Ante o exposto, esta 6ª Turma Recursal dos Juizados Especiais resolve, por unanimidade dos votos, em relação ao recurso de ANA PAULA MOREIRA DA CRUZ, julgar pelo(a) Com Resolução do Mérito - Provimento nos exatos termos do voto. O julgamento foi presidido pelo (a) Juiz(a) Gisele Lara Ribeiro, com voto, e dele participaram os Juízes Marcos José Vieira (relator) e Haroldo Demarchi Mendes. 28 de agosto de 2026 Marcos José Vieira Juiz relator
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