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Acórdão
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TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ 6ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS Recurso Inominado Cível n° 0013505-70.2025.8.16.0031 RecIno 1º Juizado Especial da Fazenda Pública de Guarapuava Recorrente(s): Município de Guarapuava/PR Recorrido(s): GRACIELE SCHAFER DE FRANÇA Relator: Marcos José Vieira RECURSO INOMINADO. SERVIDORA DO MAGISTÉRIO DO MUNICÍPIO DE GUARAPUAVA. AÇÃO DE COBRANÇA DE DIFERENÇAS REMUNERATÓRIAS DE AULAS SUPLEMENTARES. LEI COMPLEMENTAR MUNICIPAL Nº 260/2026. IRRELEVÂNCIA PARA O DESLINDE DA DEMANDA. SENTENÇA QUE LIMITOU A CONDENAÇÃO AO PERÍODO ANTERIOR À REGULARIZAÇÃO DO PAGAMENTO EM FOLHA, NÃO ALCANÇANDO EVENTUAL PERÍODO DE VIGÊNCIA DO NOVO DIPLOMA LEGAL. PAGAMENTO REALIZADO COM BASE NO NÍVEL INICIAL DA CLASSE. OFENSA AO ART. 7º, INCISO XVI, C/C O § 3º DO ART. 39 DA CF. MATÉRIA JÁ DECIDIDA COM EFICÁCIA VINCULANTE PELO ÓRGÃO ESPECIAL DO TJPR. PAGAMENTO QUE DEVE LEVAR EM CONSIDERAÇÃO O NÍVEL E A CLASSE EFETIVAMENTE OCUPADO POR CADA PROFESSOR. SENTENÇA DE PARCIAL PROCEDÊNCIA MANTIDA. RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO. RELATÓRIO Graciele Schafer de França, servidora pública ocupante da carreira do magistério, ajuizou ação em face do Município de Guarapuava, visando a dele obter o pagamento das diferenças de remuneração a título de jornada suplementar, acrescidas dos reflexos salariais. O Juízo de origem julgou procedente em parte o pedido. Inconformado, o vencido interpôs o presente recurso requerendo a reforma da sentença. Facultada a apresentação das contrarrazões, subiram os autos a esta Turma. É o relatório. VOTO 1. Primeiramente, no que se refere ao fato superveniente suscitado pela parte recorrente, consistente na edição da Lei Complementar nº 260/2026, cumpre salientar que a sentença recorrida encontra-se em plena consonância com o referido diploma normativo. Isso porque se limitou ao reconhecimento do direito vindicado em período específico (de 01/03/2023 a 30/06/2025), não abrangendo período posterior que possa coincidir com a vigência da mencionada lei complementar. Desse modo, não há qualquer incompatibilidade entre os termos da sentença e a superveniente alteração legislativa invocada pela recorrente. 2. Bem examinados os autos, tenho que o recurso deve ser desprovido. A autora, titular do cargo efetivo de professora, realizou aulas suplementares. Pretende que o pagamento dessas seja realizado calculando-se o valor de cada hora à luz do vencimento da classe e nível que efetivamente ocupa na carreira. Aduz que o réu remunerou as aulas suplementares com base no vencimento do nível 1 da carreira. A sentença de parcial procedência deve ser mantida. Com efeito, ao contrário do que se aduz nas razões recursais, o professor que ministra as aulas suplementares o faz no exercício das atribuições do próprio cargo efetivo que ocupa. Trata-se de mera sobrejornada de trabalho, que o art. 56, § 1º, inciso I, da LCM n. 050/2014 limita a vinte horas semanais. No mais, verifico que o Município de Guarapuava remunera as aulas suplementares, calculando-as não pelo vencimento básico alusivo ao nível e classe da tabela salarial conquistados por cada professor, e sim pelo vencimento correspondente à classe/nível inicial da carreira - e mais ainda: sem qualquer embasamento legal que justifique tal padrão remuneratório. Ocorre, porém, que o Órgão Especial do eg. TJPR, em acórdão de que relatora a des. Dulce Maria Cecconi, reconheceu a inconstitucionalidade de lei municipal – de conteúdo semelhante ao que na prática exerce o Município recorrente – que estabelecia a remuneração da carga suplementar em valor inferior a 50% da hora normal. Entendeu-se que legislação com semelhante conteúdo normativo viola a garantia prevista no art. 7º, inciso XVI, da CF, a qual é extensível aos servidores públicos por força do § 3º do art. 39 da mesma Constituição. Refiro-me ao Incidente de Declaração de Inconstitucionalidade n. 755.847-2/01, cujos fundamentos se resumem nesta ementa: INCIDENTE DE INCONSTITUCIONALIDADE. SERVIDOR PÚBLICO MUNICIPAL. PROFESSOR COM CARGA DE 20 (VINTE) HORAS SEMANAIS. LABOR EXTRAORDINÁRIO. PAGAMENTO EM REGIME DE "CARGA SUPLEMENTAR". IMPOSSIBILIDADE. NECESSIDADE DE OBSERVÂNCIA DO ARTIGO 7º, XVI, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. POR FORÇA DE GARANTIA ESTENDIDA AOS SERVIDORES PÚBLICOS EU ARTIGO 39, § 3º. DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DOS ARTIGOS 38 DA LEI MUNICIPAL Nº 2.156 /2008 E 40 DA LEI MUNICIPAL Nº 1.871/2003. INCIDENTE PROCEDENTE. - O trabalho além da jornada legalmente estipulada para o servidor impõe o pagamento das respectivas horas - extras, superior, no mínimo, em 50% à da hora normal. O Estado Democrático de Direito pressupõe o reconhecimento da supremacia das normas constitucionais, pelo que todas as demais regras jurídicas lhe devem conformidade. (Incidente de Inconstitucionalidade n. 755.847-2/01 Órgão Especial - Rel. Des. Dulce Maria Cecconi, julgado em 21/10/2011). Em outra hipótese semelhante, o Órgão Especial do eg. TJPR, ao julgar o Incidente de Inconstitucionalidade nº 1.056.375-2/01, concluiu ser indevida a remuneração a menor pela dobra de jornada decorrente da substituição temporária de professor, sob pena de desvalorização do profissional da educação e de ofensa ao princípio da dignidade da pessoa humana. Confira-se a ementa do referido julgado: INCIDENTE DE DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE - §3º DO ART. 43 DA LEI MUNICIPAL Nº 1.718/03 - SOBREJORNADA - PROFESSOR MUNICIPAL - HORAS EXTRAS OU REGIME DE SUBSTITUIÇÃO - QUESTÕES AFETAS À ANÁLISE DE MÉRITO - TÉCNICA DA DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE PARCIAL COM REDUÇÃO DE TEXTO - OFENSA AOS ARTS. 1º, III, e 206, V, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL - INCIDENTE PROCEDENTE. Em prol da valorização dos profissionais da educação escolar e da dignidade da pessoa humana, o igual acréscimo de jornada quando objeto de nova contratação/acúmulo de classes, deve corresponder à dobra da remuneração do cargo que o professor percebia antes de tal acúmulo. Incidente procedente.” (TJPR - Órgão Especial - IDI - 1056375-2/01 - Região Metropolitana de Londrina - Foro Regional de Cambé - Rel.: Desembargadora Regina Afonso Portes - Unânime - J. 05.05.2014 – Grifei). Destaca-se, a propósito, o trecho do voto proferido pela Des.ª Relatora que elucida bem a questão: “Não obstante a identificação da situação de substituição demandar exame fático – o qual não pode ser exaurido em sede de controle objetivo da norma questionada – nota-se, de imediato, que a aplicabilidade do §3º do art. 43, da Lei Municipal nº 1.718/03 comporta reservas. Isso porque referida norma prevê que a retribuição pecuniária pela substituição é composta do “nível inicial do nível de habilitação do substituto” (grifos nossos), de forma a desconsiderar o nível de carreira do professor vigente à época da substituição, criando uma situação de inconstitucionalidade. Assim, por exemplo, se o professor substituto já ocupa o nível intermediário da carreira, não é lícito que perceba pelo acúmulo a remuneração correspondente ao nível inicial ou básico. No caso em tela, tendo em vista que a carga horária da substituição (20 horas semanais) é idêntica à do cargo originário, referida dobra de turno deve equivaler à dobra de remuneração. [...] O pagamento a menor da substituição com atribuições iguais ou assemelhadas e idêntica carga horária é desarrazoado e viola, dentre outros, os princípios constitucionais da razoabilidade, da dignidade da pessoa humana e da valorização do trabalho, pois implica dizer que a hora-aula da manhã tem valor superior a hora-aula do período vespertino. Não é outro o sentido do princípio “para igual trabalho, mesmo salário” presente em diplomas internacionais desde a Constituição da Filadélfia (Constituição da OIT), de modo que os valores pagos à título de substituição em caso de dobra de jornada não poderão ser inferiores aos que o servidor já percebe em decorrência do seu labor ordinário (cargo), sob pena de prejuízo da valorização do professor. Desta forma, o uso da expressão “com vencimentos equivalentes ao nível inicial do nível de habilitação do substituto” do §3º, do art. 43, da Lei Municipal nº 1.718/03 encontra-se inconstitucional, eis que a dobra de jornada deve corresponder ao pagamento dobrado da remuneração ordinária inerente ao cargo substituído. A previsão legal de custeio da substituição com valor do nível inicial independente do patamar da carreira já ocupado pelo substituto fere a razoabilidade e os fundamentos da dignidade da pessoa humana e da valorização do trabalho, inscritos no arts. 1º, incisos III, e 206, V, da Constituição Federal, porque deixa de remunerar condignamente o professor, instituindo prática inconstitucional de custeio de valor inferior ao trabalho de igual valia” (TJPR - Órgão Especial - IDI - 1056375-2/01 - Região Metropolitana de Londrina - Foro Regional de Cambé - Rel.: Desembargadora Regina Afonso Portes - Unânime - J. 05.05.2014 - frisei). Ocioso lembrar que cuidam-se de decisões cuja observância se impõe a esta Turma. Realmente, ao tratar da eficácia vinculativa da pronúncia da inconstitucionalidade de ato normativo pelos órgãos especiais dos tribunais de justiça e regionais federais, ensina Luiz Guilherme Marinoni: “Deixe-se claro que não é apenas o órgão fracionário que submeteu a questão de constitucionalidade ao quórum qualificado que fica vinculado à decisão. (...) Frise-se que todos os juízos – inclusive os de 1º grau de jurisdição – subordinados ao Tribunal de Justiça ou Regional Federal ficam vinculados à decisão tomada pelo Plenário ou pelo Órgão Especial” (in Precedentes Obrigatórios, Ed. Revista dos Tribunais, 3ª ed., 2013, págs. 510-511, grifei). Semelhante doutrina, aliás, está afinada com o CPC/2015 (art. 927, inciso V) e o art. 297, caput, do Regimento Interno do TJPR, que conferem expressa eficácia vinculante às decisões do Órgão Especial. Portanto, é improcedente eventual alegação de que a acolhida do pedido implicaria violação ao princípio da legalidade: se o padrão remuneratório adotado pelo Município é materialmente inconstitucional, a Administração, ao aplicá-lo, pratica ato ilegítimo. Da mesma forma, não há qualquer evidência de afronta à isonomia.Bem ao contrário, o que fere o postulado da igualdade substancial é remunerar todos os professores com o mesmo valor da hora laborada em aula suplementar, ignorando-se o nível e a classe obtidos por cada qual ao longo da carreira. A experiência secular do Direito nos ensina que dispensar tratamento igualitário a pessoas que se encontram em situação jurídica diferenciada é algo tão inconstitucional como tratar diferentemente os que estão em idêntica situação. De igual modo, não prospera a alegação do recorrente de que se deveria aplicar a modulação de efeitos supostamente definida no Acórdão nº 3747 /2024 do Tribunal de Contas do Estado. As decisões dos Tribunais de Contas, embora relevantes no âmbito da fiscalização administrativa e contábil, não possuem caráter jurisdicional e não se sobrepõem à autoridade dos precedentes vinculantes do Poder Judiciário. O reconhecimento judicial de que a prática remuneratória do Município é inconstitucional gera o dever de reparar o direito lesado desde a sua origem, não sendo uma recomendação administrativa de um órgão de controle externo capaz de limitar a eficácia de uma decisão judicial que visa restaurar a legalidade e a constitucionalidade. 2. Do exposto, voto no sentido de conhecer do recurso e negar-lhe provimento, mantendo a sentença recorrida por seus próprios fundamentos. Desprovido o recurso, deixo de condenar o Município ao pagamento de custas processuais, por ser beneficiário da isenção prevista no art. 5º da Lei Estadual nº 18.413/2014-PR. Todavia, condeno-o ao pagamento de honorários advocatícios, que fixo em 15% sobre o valor atualizado da causa, nos termos do art. 55 da Lei nº 9.099/1995. Ante o exposto, esta 6ª Turma Recursal dos Juizados Especiais resolve, por unanimidade dos votos, em relação ao recurso de MUNICIPIO DE GUARAPUAVA, julgar pelo(a) Com Resolução do Mérito - Não-Provimento nos exatos termos do voto. O julgamento foi presidido pelo (a) Juiz(a) Gisele Lara Ribeiro, com voto, e dele participaram os Juízes Marcos José Vieira (relator) e Haroldo Demarchi Mendes. 14 de agosto de 2026 Marcos José Vieira Juiz relator
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