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DOCUMENTO 1
 

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Processo:
0013633-23.2020.8.16.0013
(Acórdão)
Segredo de Justiça: Não
Relator(a): Gamaliel Seme Scaff
Desembargador
Órgão Julgador: 1ª Câmara Criminal
Comarca: Curitiba
Data do Julgamento: Sat Mar 11 00:00:00 BRT 2023
Fonte/Data da Publicação:  Tue Mar 14 00:00:00 BRT 2023

Ementa

APELAÇÃO CRIMINAL - RÉU CONDENADO POR FORNECER ARMA DE FOGO SEM AUTORIZAÇÃO E EM DESACORDO COM DETERMINAÇÃO LEGAL OU REGULAMENTAR (ART. 14, CAPUT, LEI 10.826/10.826/03) - PRETENSÃO ABSOLUTÓRIA COM ALEGAÇÃO DE AUSÊNCIA DE DOLO - LEI DRACONIANA LEVADA A CABO PELO CONGRESSO NACIONAL QUE, DE ACORDO COM ANALISTAS, DESRESPEITOU O REFERENDO DE 2005 - DESRESPEITO AO ART. 10 DA LEI 9.709/98 - CONTORNOS DE POSSÍVEL INCONSTITUCIONALIDADE NA MANUTENÇÃO DO ART. 35 NO TEXTO DA LEI EM FACE DO RESULTADO DO REFERENDO DE 2005 - DESRESPEITO À "SOBERANIA POPULAR" E AO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO - MANIFESTAÇÃO DO PRÓPRIO STF NO MESMO SENTIDO AO ANALISAR O REFERIDO ARTIGO NA ADI 3112/DF - A DESPEITO DISSO, O ART. 4º, §5º DO ESTATUTO DO DESARMAMENTO PERMITE A COMERCIALIZAÇÃO ENTRE PESSOAS FÍSICAS - PORTANTO, TRATA-SE DE NEGÓCIO JURÍDICO POSSÍVEL - HIPÓTESE DO CASO EM ANÁLISE (FATO INCONTROVERSO, MAS TIPIFICADO COMO INCURSO NO ART. 14) - RIGOR EXCESSIVO - NÚCLEOS DO ART. 14 DA LEI QUE SÓ NÃO INCLUIU O VERBO "PENSAR" EM POSSUIR ARMA DE FOGO COMO FATO TÍPICO, APESAR DO RESULTADO DO REFERENDO - HIPÓTESE PERMISSIVA DE COMERCIALIZAÇÃO ENTRE PARTICULARES QUE DEVE SER ANALISADA SOB O PRISMA DA BOA-FÉ OBJETIVA, CONDITIO SINE QUA NON NAS RELAÇÕES DE CONTRATO CIVIL (ART. 422, CÓDIGO CIVIL) E OBSERVADA NO CASO EM ANÁLISE - UMA DAS PARTES QUE FOI ATÉ O QG NOTICIAR E INFORMAR-SE ACERCA DOS DOCUMENTOS NECESSÁRIOS - BOA-FÉ RECONHECIDA - IMPUTAÇÃO AFASTADA. I - A Constituição Federal prevê em seu art. 14 as formas de exercício do que chama de "soberania popular", pelo voto direto e secreto pelo sufrágio universal, bem como pelo plebiscito, referendo e iniciativa popular.II - A Lei 9.709/98 regulamentou a execução dessas formas de exercício da chamada "soberania popular", estabelecendo em seu art. 10: "Art. 10. O plebiscito ou referendo, convocado nos termos da presente Lei, será considerado aprovado ou rejeitado por maioria simples, de acordo com o resultado homologado pelo Tribunal Superior Eleitoral".III - Apesar do resultado do referendo realizado no ano de 2005 em que 63% da população votou contra a proibição da comercialização de armas de fogo, o Congresso Nacional patrocinou a manutenção do art. 35 da Lei 10.826/03 com o seguinte texto: "Art. 35. É proibida a comercialização de arma de fogo e munição em todo o território nacional, salvo para as entidades previstas no art. 6o desta Lei.". Daí, o contorno de possível inconstitucionalidade da norma em razão do resultado do referendo. Aliás, o próprio STF já decidiu na ADI 3112/DF que o artigo 35 da lei ficava considerado prejudicado por todos os ministros. em face do resultado do referendo realizado em outubro de 2005 que determinou a manutenção do comércio. O que surpreende, é a manutenção do artigo 35 no texto apesar disso, vale dizer, não obstante sua inconstitucionalidade e contrariedade ao referendo, como expressão da "soberania popular" fato reconhecido até pelo STF.RECURSO DE APELAÇÃO PROVIDO PARA ABSOLVER O RÉU.