SELEÇÃO DE DECISÕES

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DOCUMENTO 1
 

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Processo:
0004800-88.2022.8.16.0031
(Acórdão)
Segredo de Justiça: Não
Relator(a): substituta renata estorilho baganha
Órgão Julgador: 3ª Câmara Criminal
Comarca: Guarapuava
Data do Julgamento: Wed Jun 25 00:00:00 BRT 2025
Fonte/Data da Publicação:  Thu Jun 26 00:00:00 BRT 2025

Ementa

APELAÇÃO CRIME. DELITOS DE ESTELIONATO (ART. 171, §4º, DO CÓDIGO PENAL, COMETIDO POR 16 (DEZESSEIS VEZES), NA FORMA DO ART. 71, DO CÓDIGO PENAL) APELAÇÃO INTERPOSTA PELA DEFESA. PLEITO RECURSAL ABSOLUTÓRIO FUNDADO NA AUSÊNCIA DE DOLO. TESE INSUBSISTENTE. MATERIALIDADE E AUTORIA DEVIDAMENTE COMPROVADAS. LESÃO AO PATRIMÔNIO DE DIVERSAS VÍTIMAS, MEDIANTE PROMESSA DE RENTABILIDADE DE INVESTIMENTOS FINANCEIROS EM MERCADO DE CAPITAIS, EM PROPORÇÕES MUITO SUPERIORES AO NORMALMENTE OBTIDO, CARACTERIZANDO O ESQUEMA CONHECIDO COMO “PIRÂMIDE FINANCEIRA”. ACUSADO QUE, INICIALMENTE, REALIZAVAM O PAGAMENTO DA RENTABILIDADE PROMETIDA, INDUZINDO E MANTENDO OS INVESTIDORES EM ERRO, VEZ QUE, CONFIANTES NA SOLIDEZ DEMONSTRADA PELA EMPRESA, INVESTIAM QUANTIAS MAIORES. GRANDE PARTE DO CAPITAL APORTADO PELAS VÍTIMAS QUE FOI DESVIADO PARA A CONTA PESSOAL DO RÉU, QUE REALIZAVA MOVIMENTAÇÕES À REVELIA DOS CLIENTES, ENQUANTO OUTRA PARTE ERA UTILIZADA PARA ALIMENTAR O ESQUEMA FRAUDULENTO DE INVESTIMENTO DO TIPO ESQUEMA EM PIRÂMIDE. ADEMAIS, COMPROVAÇÃO DE QUE A EMPRESA DO ACUSADO, EMBORA CONTRATADA PARA GERIR ATIVOS DE TERCEIROS, NÃO ERA CREDENCIADA E NÃO ESTAVA AUTORIZADA PELA COMISSÃO DE VALORES MOBILIÁRIOS PARA ATUAR NO MERCADO FINANCEIRO. SUPOSTA SUBSUNÇÃO À NORMA DO ART. 66 DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. IMPOSSIBILIDADE. COMPROVADO ARDIL PARA A OBTENÇÃO DE VANTAGEM ILÍCITA. CONFIGURAÇÃO DO CRIME DE ESTELIONATO. CONJUNTO PROBATÓRIO PRODUZIDO NA INSTRUÇÃO CRIMINAL QUE DEMONSTRA O DOLO DO ACUSADO EM FRAUDAR A VÍTIMA, COM O OBJETIVO DE OBTER VANTAGEM ILÍCITA. IMPORTÂNCIA DA PALAVRA DA VÍTIMA EM CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO. CIRCUNSTÂNCIAS APTAS A DEMONSTRAR QUE O RÉU AUFERIU VANTAGEM ILÍCITA POR MEIO DO DESVIO DE VALORES OBTIDOS DOS INVESTIDORES PARA AS SUAS CONTAS PESSOAIS E APRESENTAÇÃO DE RENTABILIDADE FICTÍCIA. APELAÇÃO INTERPOSTA PELO MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARANÁ. PLEITO PELA CONDENAÇÃO DOS DENUNCIADOS ALYSSON PAULO DA SILVA, VALDECIR ALVIO BALTOKOSKI PELA PRÁTICA DO DELITO DE ESTELIONATO E DOS DENUNCIADOS PAULO DA SILVA, VALDECIR ALVIO, LORENI MARIA E KELVYN SAMUEL PELA PRÁTICA DO DELITO DE ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA. SENTENÇA ABSOLUTÓRIA QUE DEVE SER MANTIDA. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO EFETIVA DOS CODENUNCIADOS PELA PRÁTICA DOS CRIMES DE ESTELIONATO E ASSOCIAÇÃO CRIMINOSA. ART. 386, INCISOS II E VII, DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL. PLEITO DE REFORMA DA DOSIMETRIA DA PENA DO RÉU KELVYN SAMUEL BALTOKOSKI. PENA-BASE. CULPABILIDADE. FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA E INERENTE AO TIPO PENAL DE ESTELIONATO. PENA INTERMEDIÁRIA – CONFISSÃO ESPONTÂNEA RECONHECIDA. RÉU QUE ASSUMIU SER O ÚNICO RESPONSÁVEL PELA GERÊNCIA DA EMPRESA. SÚMULA 545 DO STJ. “QUANDO A CONFISSÃO FOR UTILIZADA PARA A FORMAÇÃO DO CONVENCIMENTO DO JULGADOR, O RÉU FARÁ JUS À ATENUANTE PREVISTA NO ART. 65, III, ALÍNEA ‘D’, DO CÓDIGO PENAL” PEDIDO DE RECONHECIMENTO DA AGRAVANTE DE CONCURSO DE PESSOAS. ABSOLVIÇÃO DOS DEMAIS DENUNCIADOS. IMPOSSIBILIDADE DE RECONHECIMENTO DA AGRAVANTE DO 62, INCISO I, DO CÓDIGO PENAL. RECONHECIMENTO DA CONTINUIDADE DELITIVA. PRÁTICA DELITIVA DE MESMA ESPÉCIE, MEDIANTE DUAS OU MAIS CONDUTAS, NAS MESMAS CONDIÇÕES DE TEMPO, LUGAR E MANEIRA DE EXECUÇÃO. ALMEJADO AUMENTO DO QUANTUM FIXADO A TÍTULO DE DANOS MORAIS. VALORES PERFEITAMENTE APURADOS LEVANDO EM CONSIDERAÇÃO AS VÍTIMAS CONSTANTES NOS AUTOS E AS MAIS DE 300 VÍTIMAS DA EMPRESA BTK INVESTIMENTOS. RECURSO NÃO PROVIDO. I. Caso em exame1. Apelação crime interposta pelo Ministério Público do Estado do Paraná e por Kelvyn Samuel Baltokoski contra sentença da 1ª Vara Criminal da Comarca de Guarapuava, que absolveu alguns réus e condenou Kelvyn Samuel Baltokoski pelo crime de estelionato, praticado em continuidade delitiva, em razão de um esquema fraudulento de captação de investimentos na empresa BTK Investimentos, que lesou diversas vítimas ao prometer rentabilidades irregulares e fictícias. O Ministério Público requereu a condenação de outros réus e a reforma da dosimetria da pena imposta a Kelvyn.II. Questão em discussão2. A questão em discussão consiste em saber se a sentença que absolveu alguns réus e condenou Kelvyn Samuel Baltokoski por estelionato deve ser mantida, considerando a materialidade e autoria do crime, bem como a ausência de dolo alegada pela defesa.III. Razões de decidir3. A materialidade e autoria do crime de estelionato foram devidamente comprovadas, com depoimentos uníssonos das vítimas e documentos que evidenciam a fraude.4. O acusado utilizou meios fraudulentos para induzir as vítimas a erro, prometendo rentabilidade de investimentos em condições irregulares e sem autorização da CVM.5. A defesa do réu não conseguiu demonstrar a ausência de dolo, uma vez que as provas indicam que ele tinha plena ciência das irregularidades e se beneficiava financeiramente delas.6. A sentença absolutória em relação aos co-réus foi mantida devido à ausência de provas suficientes que comprovassem a participação deles nos crimes de estelionato e organização criminosa.IV. Dispositivo e tese7. Apelação não provida.Tese de julgamento: A prática de estelionato, caracterizada pela indução de vítimas a erro mediante promessas de rentabilidade em investimentos financeiros, configura crime mesmo na ausência de autorização para operar no mercado financeiro, sendo suficiente a comprovação do dolo e da materialidade delitiva para a condenação dos responsáveis pela gestão do esquema fraudulento._________Dispositivos relevantes citados: CP, art. 171, § 4º; CP, art. 71; CPP, art. 386, incisos II e VII; Lei nº 12.850/2013, art. 2º, caput e § 3º.Jurisprudência relevante citada: TJPR, Apelação Criminal 0001752-72.2022.8.16.0112, Rel. Substituto Humberto Goncalves Brito, 3ª Câmara Criminal, j. 24.04.2025; TJPR, Apelação Criminal 0004827-16.2008.8.16.0014, Rel. Desembargador Mario Nini Azzolini, 3ª Câmara Criminal, j. 15.03.2025; Súmula nº 231/STJ.Resumo em linguagem acessível: O tribunal decidiu que Kelvyn Samuel Baltokoski foi condenado por estelionato, pois ele e outros envolvidos enganaram várias pessoas ao prometer altos rendimentos em investimentos que não existiam. A prova mostrou que ele usou mentiras e documentos falsos para convencer as vítimas a investirem dinheiro, que acabou sendo desviado para suas contas pessoais. Embora o Ministério Público tenha pedido a condenação de outros réus por estelionato e organização criminosa, o tribunal manteve a absolvição deles por falta de provas suficientes. A pena imposta a Kelvyn foi de 3 anos e 8 meses de prisão, além de multa e indenização às vítimas. A decisão foi baseada em depoimentos das vítimas e provas que mostraram claramente a intenção de enganar e obter vantagens ilícitas.