SELEÇÃO DE DECISÕES

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Processo:
0011914-74.2021.8.16.0173
(Acórdão)
Segredo de Justiça: Não
Relator(a): substituto delcio miranda da rocha
Órgão Julgador: 2ª Câmara Criminal
Comarca: Umuarama
Data do Julgamento: Fri Sep 25 00:00:00 BRT 2026
Fonte/Data da Publicação:  Mon Sep 28 00:00:00 BRT 2026

Ementa

DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL. RECURSOS DE APELAÇÃO. PECULATO E FALSIDADE IDEOLÓGICA. PRELIMINAR DE INCOMPETÊNCIA DA JUSTIÇA ESTADUAL. ACOLHIMENTO. DESVIO DE VERBAS DO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE REPASSADAS NA MODALIDADE FUNDO A FUNDO. NATUREZA FEDERAL DOS RECURSOS PRESERVADA AO LONGO DA CADEIA DE REPASSE, AINDA QUE INCORPORADOS AO PATRIMÔNIO MUNICIPAL E REPASSADOS A ENTIDADE PRIVADA CONVENIADA. SUJEIÇÃO À FISCALIZAÇÃO DO MINISTÉRIO DA SAÚDE E DO TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA FEDERAL. SÚMULA 209/STJ INAPLICÁVEL AO CASO. NULIDADE DOS ATOS DECISÓRIOS, INCLUSIVE DA SENTENÇA CONDENATÓRIA. REMESSA DOS AUTOS À JUSTIÇA FEDERAL. RECURSOS DE PEDRO E VALDECIR PARCIALMENTE PROVIDOS. PREJUDICADA A ANÁLISE DOS DEMAIS PEDIDOS RECURSAIS DAS DEFESAS E DO RECURSO DO MINISTÉRIO PÚBLICO. I. CASO EM EXAME 1.1. Trata-se de apelações criminais interpostas pelas defesas de dois réus e pelo Ministério Público diante da sentença que julgou parcialmente procedente a pretensão punitiva estatal. 1.2. A sentença condenou os dois réus pelo crime de peculato (art. 312, caput, c/c art. 327, §1º, do CP, por duas vezes), tendo absolvido os demais acusados dos crimes de falsidade ideológica e peculato. 1.3. Os fatos consistem em suposto esquema de desvio de recursos do Fundo Municipal de Saúde, verba federal advinda do Sistema Único de Saúde, repassados a entidade filantrópica conveniada, mediante a emissão de nota fiscal sem lastro em prestação de serviços efetiva. 1.4. As defesas suscitaram, em preliminar, a incompetência da Justiça Estadual, com pedido de declaração de nulidade dos atos decisórios e remessa dos autos à Justiça Federal. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2.1. A questão em discussão consiste em saber se a Justiça Estadual é competente para processar e julgar a ação penal, considerando que o desvio recai sobre verbas do Sistema Único de Saúde repassadas ao Fundo Municipal de Saúde na modalidade fundo a fundo e, por meio de convênio, a entidade privada conveniada. III. RAZÕES DE DECIDIR 3.1. A orientação anterior deste Tribunal reconhecia a competência da Justiça Estadual, com base na Súmula 209/STJ e na ausência, no convênio, de cláusula prevendo prestação de contas à União. 3.2. Esse entendimento foi superado por decisão monocrática do Superior Tribunal de Justiça proferida em recurso relativo à mesma operação, que reconheceu a natureza federal das verbas do SUS repassadas fundo a fundo, mesmo após a incorporação ao patrimônio municipal e o repasse a entidade conveniada. 3.3. As verbas do Sistema Único de Saúde, ainda que incorporadas ao erário municipal e repassadas a entidade privada conveniada, permanecem sujeitas à fiscalização do Ministério da Saúde e do Tribunal de Contas da União, o que configura interesse da União nos termos do art. 109, IV, da Constituição Federal. 3.4. A competência fiscalizatória do Tribunal de Contas da União decorre diretamente do art. 71, VI, da Constituição Federal e não pode ser afastada por cláusula do convênio que atribua a fiscalização a órgão municipal. 3.5. Reconhecida a incompetência da Justiça Estadual, são nulos os atos decisórios praticados, inclusive a sentença condenatória, nos termos do art. 567 do Código de Processo Penal, preservados os atos instrutórios à luz da teoria do juízo aparente, cabendo ao Juízo Federal deliberar sobre sua convalidação. 3.6. Anulada a sentença, fica prejudicada a análise dos demais pedidos recursais formulados pelas defesas e pelo Ministério Público. IV. DISPOSITIVO 4.1. Recursos dos réus conhecidos e parcialmente providos para reconhecer a incompetência da Justiça Estadual, com anulação dos atos decisórios e remessa dos autos à Justiça Federal. Recurso do Ministério Público prejudicado.Dispositivos relevantes citados: CF, art. 109, IV; CF, art. 71, VI; CPP, art. 567; CP, art. 312, caput, c/c art. 327, §1º; CP, art. 299, caput; Lei n.º 8.080/1990, art. 33, §4º. Jurisprudência relevante citada: STF, ARE 1.558.285 AgR, 1ª Turma, j. 01.09.2025; STF, ARE 1.505.972 AgR, 2ª Turma, j. 25.10.2024; STJ, Súmula 208; STJ, Súmula 209; STJ, RHC n. 221.295/PR, decisão monocrática, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, j. 25.11.2025; STJ, AgRg no AREsp n. 3.014.973/MG, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, 5ª Turma, j. 03.02.2026; STJ, AgRg no AREsp n. 3.139.112/GO, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, 5ª Turma, j. 19.05.2026; STJ, RHC n. 175.946/RJ, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, 6ª Turma, j. 16.12.2025; STJ, AgRg no AREsp n. 3.005.020/MG, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, 5ª Turma, j. 10.12.2025; STJ, AgRg no AREsp n. 2.730.764/RJ, Rel. Min. Carlos Cini Marchionatti, 5ª Turma, j. 05.08.2025; STJ, AgRg no AREsp n. 2.593.089/GO, Rel. Min. Antonio Saldanha Palheiro, 6ª Turma, j. 20.05.2025; STJ, AgRg no RHC n. 156.413/GO, Rel. Min. Ribeiro Dantas, 5ª Turma, j. 05.04.2022; TJPR, 2ª Câmara Criminal, Ap. 0002486-25.2020.8.16.0037, Rel. Des. Mario Helton Jorge, j. 25.01.2024.